segunda-feira, 5 de setembro de 2016
Tema: O contrabando
Tudo contrabandeei
No vigor da minha vida;
Hoje que me reformei
Só já recordo essa lida
À chuva, vento e ao frio,
Noites e noites andando,
As gentes do contrabando
Passavam a custo o rio;
Aprendi com um meu tio
Aquilo que ainda sei
E que depois ensinei:
Café, tabaco e tecidos,
Gados, loiças e vestidos
Tudo contrabandeei!
Era nos canaviais
Que a gente se escondia
Dormindo durante o dia
Para a noite render mais;
Entre gemidos e ais
Íamos nós de saída
Nessa autêntica corrida
Jogando ao gato e o rato
Feita pelo meio do mato
No vigor da minha vida
Atravessando a campina
Lá no Posto dos Mociços,
Safei-me aos Pica-Chouriços
Numa noite de neblina;
Fugi por uma ravina:
Por todo o lado saltei
Nem sei como me safei
Mas arranjei um enredo:
Lembro-me e tenho medo
Hoje que me reformei
Relembro que o “Pata Larga”
Uma vez, em Juromenha,
Escondeu-se numa brenha
Ele mais a sua carga;
Com os guardas à ilharga
E as balas de zunida
P’ra Cheles foi de fugida
Safou-se p’ró outro lado…
…E eu hoje, velho e cansado
Só já recordo essa lida
Autor: Fernando Máximo/Avis
IV Concurso de Poesia Popular
Camara Municipal de Alandroal
Tema: O contrabando (2016)
1º CLASSIFICADO
Tudo contrabandeei
No vigor da minha vida;
Hoje que me reformei
Só já recordo essa lida
À chuva, vento e ao frio,
Noites e noites andando,
As gentes do contrabando
Passavam a custo o rio;
Aprendi com um meu tio
Aquilo que ainda sei
E que depois ensinei:
Café, tabaco e tecidos,
Gados, loiças e vestidos
Tudo contrabandeei!
Era nos canaviais
Que a gente se escondia
Dormindo durante o dia
Para a noite render mais;
Entre gemidos e ais
Íamos nós de saída
Nessa autêntica corrida
Jogando ao gato e o rato
Feita pelo meio do mato
No vigor da minha vida
Atravessando a campina
Lá no Posto dos Mociços,
Safei-me aos Pica-Chouriços
Numa noite de neblina;
Fugi por uma ravina:
Por todo o lado saltei
Nem sei como me safei
Mas arranjei um enredo:
Lembro-me e tenho medo
Hoje que me reformei
Relembro que o “Pata Larga”
Uma vez, em Juromenha,
Escondeu-se numa brenha
Ele mais a sua carga;
Com os guardas à ilharga
E as balas de zunida
P’ra Cheles foi de fugida
Safou-se p’ró outro lado…
…E eu hoje, velho e cansado
Só já recordo essa lida
Autor: Fernando Máximo/Avis
IV Concurso de Poesia Popular
Camara Municipal de Alandroal
Tema: O contrabando (2016)
1º CLASSIFICADO
sexta-feira, 2 de setembro de 2016
Guardas e contrabandistas
Ouvira dizer muitas vezes que para a Guarda-fiscal só iam os contrabandistas. Isso era dito com más intenções. Obviamente que só podia ser com más intenções. Ele, enquanto contrabandista, dissera-o também muitas vezes, pois que até conhecia alguns nessa condição. Mas o destino às vezes é surpreendente: acabado o serviço militar obrigatório o Tonho da Mochila, por influência de um amigo do pai, mete os papéis para a Guarda e então não é que é chamado? Ora se ele estava para se casar e se lhe aparecia aquela hipótese de uma vida melhor porque não aproveitar? E foi incorporado no ano de 1947 tendo sido colocado no posto de S. Brás dos Matos, na Mina do Bugalho, no concelho do Alandroal, ali bem junto ao rio Guadiana que, por mor da subida das águas do Alqueva neste momento já está submerso. Foi ali que “desemburrou”, como se costuma dizer. Mas as suas origens não eram aquelas e então nada melhor do que tentar aproximar-se de casa pois que ninguém vive melhor do que quem vive junto dos seus. E ao fim de ano e meio de S. Brás dos Matos, o nosso guarda António Santos, ex-contrabandista Tonho da Mochila, é colocado no posto de Galegos, já muito perto da sua santa terrinha que era S. Julião, concelho de Portalegre. Hoje, reformado, mais não faz do que desfazer o novelo das suas recordações, trazendo ao de cima situações bastante caricatas e há uma que sempre, mas sempre, se sobrepõe às outras.
Talvez vos deva explicar porque é que o guarda António Santos era o Tonho da Mochila antes de ser incorporado naquela força militarizada. É que ele conseguia sempre trazer uma “mochilada” de contrabando maior que o dos seus colegas, quando ia a La Codosera nas imediações da sua terra. Mas este esclarecimento até é irrelevante para a nossa história, pelo que vamo-nos centrar no tal episódio mais marcante de quantos passaram pela vida deste guarda e que o marcou definitivamente.
Chegado ao posto de Galegos, depressa se entrosa com a sociedade civil, não deixando de ser curioso que havia um certo limite, por vezes bem definido, que impunha até onde se poderiam estender as amizades e as companhias. Ao fim de três meses de se ter apresentado ao cabo Marques, comandante do posto, este chamou o guarda António Santos ao seu gabinete: é que durante este tempo todo o jovem ainda não apresentara qualquer serviço, não fizera qualquer apreensão. Era assim: ele sabia que havia que se mostrar serviço, mas caramba, as pessoas, entenda-se os contrabandistas, também tinham família para sustentar, também tinham encargos. Ele, melhor que ninguém, sabia como era. Mas o raspanete do Cabo Marques foi demasiado severo e o nosso guarda ficou bastante apreensivo. Tinha que fazer qualquer coisa. À tarde foi até à venda onde se juntavam os usuais sobreviventes do contrabando, para tentar sacar algo. Para disfarçar, bebeu um pirolito que lhe subiu ao nariz, tossiu engasgado e ouviu alguém dizer entre dentes: Estás aqui a mais! Antes bebesses um copo de veneno...
Depois de beber o pirolito, o nosso guarda saiu. Era já quase lusco-fusco quando a meio do caminho entre a venda e a sua casa ouviu alguém chamá-lo baixinho. Sempre houve bufos, gente infiel, denunciantes. Quem o chamava era o Manel Zarolho, assim apelidado por causa de um tiro de raspão que levara num olho, disparado por um guarda a quem tentara fugir certa vez, com uma taleigada de café.
- Senhor guarda, se me ajudar eu dou-lhe umas pistas.
- Umas pistas? O que queres dizer, ó Zarolho?
- Então é assim: logo, eu e mais três companheiros vamos à Fontanheira levar umas cargas de café. Eu tenho andado com azar pois este mês já fui apanhado duas vezes pelos carabineiros e não tenho ganho nem para a onça de tabaco. O que eu tenho a propor ao senhor guarda é o seguinte: nós entre as duas e as três vamos regressar carregados, pela vereda que conduz à parede do Porto da Azinheira. Eu sou o da frente e você só tem que apanhar o de trás que assim já o senhor apresenta serviço e eu safo-me desta vez. Está a compreender? Eu não sou nenhum filho da mãe, nenhum denunciante, mas com o azar com que ando ultimamente, já tenho medo de tudo! Se eu fosse mau dizia para me deixar safar só a mim e que apanhasse os outros três. Mas não, e assim você fica bem visto e nós safamos alguma coisa. Mas não pode dizer nada, senão eles matam-me. Combinado?
- Está bem, e como sei que não me estás a enganar?
- O senhor conhece-me e se não for assim como eu lhe digo, depois dá-me uma sova das valentes na primeira vez que me encontrar.
- Fica combinado. Vou repetir para não falhar nada: entre as duas e as três da madrugada, no Porto da Azinheira, na vereda que conduz à parede. Tu és o primeiro, eu apanho o último...
Cada um seguiu o seu caminho. António Santos foi jantar calmamente uma sopinha da panela, sonhando com o seu primeiro serviço naquele posto, enquanto o Zarolho foi ter com os companheiros, certo de que se iria safar. Mal se fez de noite carregaram umas mochilas de cerca de quarenta quilos de café cada um e foram a caminho da Fontanheira. Uma vez lá chegados, descarregaram as cargas, e dormiram um bocado para descansar e recobrar forças para no regresso a casa poderem trazer mais uns trinta quilos de toucinho e algum azeite ou mel, já que agora não havia fardos de cortiça para contrabandear. Descansaram, dizia eu, mas não todos. O Zarolho andava lá enrabichado com uma espanhola, foi namorar e quando deu pelas horas já os companheiros tinham saído. Não havia muito tempo é certo, mas já não os vislumbrava apesar de saber que eles iriam por perto e espaçados de cerca de dez minutos cada um. Por sua vez o guarda António Santos, à civil mas de pistola e bem agachado junto ao local onde os contrabandistas tinham que saltar a parede do Porto da Azinheira, esperava pacientemente no seu aguardo. O tempo custava-lhe a passar. A noite estava de luar mas o céu encoberto por nuvens altas, não lhe dava lá grande visibilidade. Começava a desesperar quando ouviu “rasmalhar” ao fundo da vereda, e mais longe ainda ouviu o ladrar de um cão. Apurou a vista mais o ouvido e viu aproximar-se, vagarosamente, um vulto que a custo se movia vereda acima com uma enorme carga às costas. Pensou: é o primeiro a passar, logo é o Zarolho. Mas que até não lhe pareceu o andar dele...passados dez minutos, outro; mais dez minutos, outro. Houve um espaço maior. O guarda olhou o relógio: já havia quinze minutos que passara o último contrabandista. Julgou-se enganado. Espumou de raiva e praguejou contra o Zarolho. Deixara-os passar a todos. E o cabo Marques? De repente vê aproximar-se o último, já com vinte minutos de espaçamento:
- Alto em nome da lei! Larga a carga ou mato-te! disse o guarda Santos já bem agarrado aos tirantes da grande carga de cerca de quarenta quilos de toucinho que já cheirava um pouco a bafio.
- Senhor guarda, eu sou o Zarolho... Sabe... a minha Lolita não me largava e eu quando me despachei já eles tinham abalado...já não fui o primeiro...sabe esta coisa das mulheres serem teimosas...eu não queria, mas...e agora senhor guarda?
- E agora, Zarolho? Que queres que eu te faça? Bolas p’ra isto!
- Tenha pena de mim que sou um desgraçado. Nem para denunciante sirvo! Se o senhor guardinha quiser, leve-me o toucinho mas deixe-me ao menos o mel que é para os meus gaiatos que andam com tosse, tadinhos...
...No dia seguinte, o cabo Marques deu os parabéns ao guarda Santos, pela apreensão de toucinho que fizera. Era pouco, mas já era alguma coisita. De mais a mais tendo em conta de que actuara sozinho... Por sua vez o guarda António Santos, desconfiava, à altura deste relato, que não tinha lá grande “queda” para ser guarda...era um coração mole! Hoje tem a certeza: foi transferido como impedido para a Secção de Portalegre, onde se reformou por limite de idade.
Avis, 16 de Julho de 2006
(Fernando Máximo)
Sou filho de um ex-guarda-Fiscal, de nome JOSÉ DA SILVA MÁXIMO. Esteve em tantos postos da fronteira alentejana e algarvia que nem sei...Rabaça, S. Brás dos Matos, Pomarão, Mocissos, Tomina...
As vezes gosto de escrever uns bocados de verdades misturadas com imaginação. Quero partilhar convosco um conto que, por acaso, até foi premiado com uma menção honrosa num concurso literário que houve no Redondo....para todos vós que gostais de "A grande família da Guarda-Fiscal":
Ouvira dizer muitas vezes que para a Guarda-fiscal só iam os contrabandistas. Isso era dito com más intenções. Obviamente que só podia ser com más intenções. Ele, enquanto contrabandista, dissera-o também muitas vezes, pois que até conhecia alguns nessa condição. Mas o destino às vezes é surpreendente: acabado o serviço militar obrigatório o Tonho da Mochila, por influência de um amigo do pai, mete os papéis para a Guarda e então não é que é chamado? Ora se ele estava para se casar e se lhe aparecia aquela hipótese de uma vida melhor porque não aproveitar? E foi incorporado no ano de 1947 tendo sido colocado no posto de S. Brás dos Matos, na Mina do Bugalho, no concelho do Alandroal, ali bem junto ao rio Guadiana que, por mor da subida das águas do Alqueva neste momento já está submerso. Foi ali que “desemburrou”, como se costuma dizer. Mas as suas origens não eram aquelas e então nada melhor do que tentar aproximar-se de casa pois que ninguém vive melhor do que quem vive junto dos seus. E ao fim de ano e meio de S. Brás dos Matos, o nosso guarda António Santos, ex-contrabandista Tonho da Mochila, é colocado no posto de Galegos, já muito perto da sua santa terrinha que era S. Julião, concelho de Portalegre. Hoje, reformado, mais não faz do que desfazer o novelo das suas recordações, trazendo ao de cima situações bastante caricatas e há uma que sempre, mas sempre, se sobrepõe às outras.
Talvez vos deva explicar porque é que o guarda António Santos era o Tonho da Mochila antes de ser incorporado naquela força militarizada. É que ele conseguia sempre trazer uma “mochilada” de contrabando maior que o dos seus colegas, quando ia a La Codosera nas imediações da sua terra. Mas este esclarecimento até é irrelevante para a nossa história, pelo que vamo-nos centrar no tal episódio mais marcante de quantos passaram pela vida deste guarda e que o marcou definitivamente.
Chegado ao posto de Galegos, depressa se entrosa com a sociedade civil, não deixando de ser curioso que havia um certo limite, por vezes bem definido, que impunha até onde se poderiam estender as amizades e as companhias. Ao fim de três meses de se ter apresentado ao cabo Marques, comandante do posto, este chamou o guarda António Santos ao seu gabinete: é que durante este tempo todo o jovem ainda não apresentara qualquer serviço, não fizera qualquer apreensão. Era assim: ele sabia que havia que se mostrar serviço, mas caramba, as pessoas, entenda-se os contrabandistas, também tinham família para sustentar, também tinham encargos. Ele, melhor que ninguém, sabia como era. Mas o raspanete do Cabo Marques foi demasiado severo e o nosso guarda ficou bastante apreensivo. Tinha que fazer qualquer coisa. À tarde foi até à venda onde se juntavam os usuais sobreviventes do contrabando, para tentar sacar algo. Para disfarçar, bebeu um pirolito que lhe subiu ao nariz, tossiu engasgado e ouviu alguém dizer entre dentes: Estás aqui a mais! Antes bebesses um copo de veneno...
Depois de beber o pirolito, o nosso guarda saiu. Era já quase lusco-fusco quando a meio do caminho entre a venda e a sua casa ouviu alguém chamá-lo baixinho. Sempre houve bufos, gente infiel, denunciantes. Quem o chamava era o Manel Zarolho, assim apelidado por causa de um tiro de raspão que levara num olho, disparado por um guarda a quem tentara fugir certa vez, com uma taleigada de café.
- Senhor guarda, se me ajudar eu dou-lhe umas pistas.
- Umas pistas? O que queres dizer, ó Zarolho?
- Então é assim: logo, eu e mais três companheiros vamos à Fontanheira levar umas cargas de café. Eu tenho andado com azar pois este mês já fui apanhado duas vezes pelos carabineiros e não tenho ganho nem para a onça de tabaco. O que eu tenho a propor ao senhor guarda é o seguinte: nós entre as duas e as três vamos regressar carregados, pela vereda que conduz à parede do Porto da Azinheira. Eu sou o da frente e você só tem que apanhar o de trás que assim já o senhor apresenta serviço e eu safo-me desta vez. Está a compreender? Eu não sou nenhum filho da mãe, nenhum denunciante, mas com o azar com que ando ultimamente, já tenho medo de tudo! Se eu fosse mau dizia para me deixar safar só a mim e que apanhasse os outros três. Mas não, e assim você fica bem visto e nós safamos alguma coisa. Mas não pode dizer nada, senão eles matam-me. Combinado?
- Está bem, e como sei que não me estás a enganar?
- O senhor conhece-me e se não for assim como eu lhe digo, depois dá-me uma sova das valentes na primeira vez que me encontrar.
- Fica combinado. Vou repetir para não falhar nada: entre as duas e as três da madrugada, no Porto da Azinheira, na vereda que conduz à parede. Tu és o primeiro, eu apanho o último...
Cada um seguiu o seu caminho. António Santos foi jantar calmamente uma sopinha da panela, sonhando com o seu primeiro serviço naquele posto, enquanto o Zarolho foi ter com os companheiros, certo de que se iria safar. Mal se fez de noite carregaram umas mochilas de cerca de quarenta quilos de café cada um e foram a caminho da Fontanheira. Uma vez lá chegados, descarregaram as cargas, e dormiram um bocado para descansar e recobrar forças para no regresso a casa poderem trazer mais uns trinta quilos de toucinho e algum azeite ou mel, já que agora não havia fardos de cortiça para contrabandear. Descansaram, dizia eu, mas não todos. O Zarolho andava lá enrabichado com uma espanhola, foi namorar e quando deu pelas horas já os companheiros tinham saído. Não havia muito tempo é certo, mas já não os vislumbrava apesar de saber que eles iriam por perto e espaçados de cerca de dez minutos cada um. Por sua vez o guarda António Santos, à civil mas de pistola e bem agachado junto ao local onde os contrabandistas tinham que saltar a parede do Porto da Azinheira, esperava pacientemente no seu aguardo. O tempo custava-lhe a passar. A noite estava de luar mas o céu encoberto por nuvens altas, não lhe dava lá grande visibilidade. Começava a desesperar quando ouviu “rasmalhar” ao fundo da vereda, e mais longe ainda ouviu o ladrar de um cão. Apurou a vista mais o ouvido e viu aproximar-se, vagarosamente, um vulto que a custo se movia vereda acima com uma enorme carga às costas. Pensou: é o primeiro a passar, logo é o Zarolho. Mas que até não lhe pareceu o andar dele...passados dez minutos, outro; mais dez minutos, outro. Houve um espaço maior. O guarda olhou o relógio: já havia quinze minutos que passara o último contrabandista. Julgou-se enganado. Espumou de raiva e praguejou contra o Zarolho. Deixara-os passar a todos. E o cabo Marques? De repente vê aproximar-se o último, já com vinte minutos de espaçamento:
- Alto em nome da lei! Larga a carga ou mato-te! disse o guarda Santos já bem agarrado aos tirantes da grande carga de cerca de quarenta quilos de toucinho que já cheirava um pouco a bafio.
- Senhor guarda, eu sou o Zarolho... Sabe... a minha Lolita não me largava e eu quando me despachei já eles tinham abalado...já não fui o primeiro...sabe esta coisa das mulheres serem teimosas...eu não queria, mas...e agora senhor guarda?
- E agora, Zarolho? Que queres que eu te faça? Bolas p’ra isto!
- Tenha pena de mim que sou um desgraçado. Nem para denunciante sirvo! Se o senhor guardinha quiser, leve-me o toucinho mas deixe-me ao menos o mel que é para os meus gaiatos que andam com tosse, tadinhos...
...No dia seguinte, o cabo Marques deu os parabéns ao guarda Santos, pela apreensão de toucinho que fizera. Era pouco, mas já era alguma coisita. De mais a mais tendo em conta de que actuara sozinho... Por sua vez o guarda António Santos, desconfiava, à altura deste relato, que não tinha lá grande “queda” para ser guarda...era um coração mole! Hoje tem a certeza: foi transferido como impedido para a Secção de Portalegre, onde se reformou por limite de idade.
Avis, 16 de Julho de 2006
(Fernando Máximo)
Sou filho de um ex-guarda-Fiscal, de nome JOSÉ DA SILVA MÁXIMO. Esteve em tantos postos da fronteira alentejana e algarvia que nem sei...Rabaça, S. Brás dos Matos, Pomarão, Mocissos, Tomina...
As vezes gosto de escrever uns bocados de verdades misturadas com imaginação. Quero partilhar convosco um conto que, por acaso, até foi premiado com uma menção honrosa num concurso literário que houve no Redondo....para todos vós que gostais de "A grande família da Guarda-Fiscal":
sábado, 26 de dezembro de 2015
Recolectar
A rotina. Essa cavernosa mãe de todos os vazios, de todas as depressões. Tinha, pois, decidido suspender os meus Votos de Natal, de tal modo me soavam já a rabanadas. Eis que, no entretanto, decide o governo apresentar o seu programa, centrados os objectivos em torno do consumo, ao mesmo tempo que a Paris afluíam quase todos os governantes da Terra em demanda de antídoto para o aquecimento global. Pareceram-me muitas as contradições, e por momentos me soltei do sonambulismo em que esta sociedade da abundância me retém narcotizadamente prostrado.
Os humanos, sabendo que o Planeta está, como qualquer organismo, endemicamente marcado pela morte, tentam desesperadamente retardá-la, depois de, desde os alvores do sedentarismo, a terem loucamente apressado no festim de todas as ganâncias. Assim é a inteligência humana: a cereja envenenada no topo do bolo. De conquista em conquista dos segredos da Natureza, eis-nos chegados, como Pirro, à iminência do Armagedão final, em que, no dizer de Shopenhauer, é a Vontade que supera a Inteligência na tomada de decisão sobre a natureza e o sentido das coisas. Pois diz-me, irmão, se, aqui chegados, depois de tanta descoberta feita por esse expoente evolutivo que é a Inteligência humana, a tua Vontade prescinde do calor e do frio manipulados, das locomoções propulsionadas, das provisões alimentares, das próteses robóticas, do automatismo das armas, da informação a distância, da saúde em provetas e comprimidos, da vida em quantidade... Não, não prescindes, tal como os 190 e tantos governantes da Terra, que, em Paris, ansiavam por regressar a Penates e às boas graças dos seus súbditos, proporcionando-lhes as cada vez mais completas e sofisticadas condições de consumo...até que a nós próprios nos consuma a geena.
Vislumbro, ao fundo do túnel, a possibilidade de superarmos este quadro apocalíptico: que a esta Vontade instintiva, que subrepticiamente nos determina e condiciona os comportamentos, saibamos opor a Vontade caldeada pela Razão de simplesmente vivermos ao ritmo da Natureza, no respeito pelos seus mistérios. É frase feita, até à náusea repetida. O que talvez não tenha sido ainda enunciado, por ignorância ou mero pudor, é a sua fórmula prática: voltar à recolecção e à predação natural como forma de subsistência. Por mim, introduzi já na minha dieta bolotas, saramagos e medronhos com fartura, e tenho montado umas emboscadas, embora sem êxito, por enquanto, a uma lebre que resiste ali para os lados da minha Barroca Funda. Se todos me seguirem o exemplo, é quase garantido que o planeta retome a sua inexorável, mas muito mais lenta, progressão para a morte. Restar-nos-ão, assim, uns bons séculos em que será ainda possível recriar bucólicos ambientes virgilianos com melodiosos zumbidos de atarefadas abelhas e cabritinhos saltando em verdejantes e floridos prados ao som de amenas flautas.
Sem esta conversão, irmão, é o fim que nos espreita ao virar do século, ou já da próxima esquina, se não tivermos a coragem e o engenho de evitar os esquinosos programas de consumo dos nossos governantes.
Os humanos, sabendo que o Planeta está, como qualquer organismo, endemicamente marcado pela morte, tentam desesperadamente retardá-la, depois de, desde os alvores do sedentarismo, a terem loucamente apressado no festim de todas as ganâncias. Assim é a inteligência humana: a cereja envenenada no topo do bolo. De conquista em conquista dos segredos da Natureza, eis-nos chegados, como Pirro, à iminência do Armagedão final, em que, no dizer de Shopenhauer, é a Vontade que supera a Inteligência na tomada de decisão sobre a natureza e o sentido das coisas. Pois diz-me, irmão, se, aqui chegados, depois de tanta descoberta feita por esse expoente evolutivo que é a Inteligência humana, a tua Vontade prescinde do calor e do frio manipulados, das locomoções propulsionadas, das provisões alimentares, das próteses robóticas, do automatismo das armas, da informação a distância, da saúde em provetas e comprimidos, da vida em quantidade... Não, não prescindes, tal como os 190 e tantos governantes da Terra, que, em Paris, ansiavam por regressar a Penates e às boas graças dos seus súbditos, proporcionando-lhes as cada vez mais completas e sofisticadas condições de consumo...até que a nós próprios nos consuma a geena.
Vislumbro, ao fundo do túnel, a possibilidade de superarmos este quadro apocalíptico: que a esta Vontade instintiva, que subrepticiamente nos determina e condiciona os comportamentos, saibamos opor a Vontade caldeada pela Razão de simplesmente vivermos ao ritmo da Natureza, no respeito pelos seus mistérios. É frase feita, até à náusea repetida. O que talvez não tenha sido ainda enunciado, por ignorância ou mero pudor, é a sua fórmula prática: voltar à recolecção e à predação natural como forma de subsistência. Por mim, introduzi já na minha dieta bolotas, saramagos e medronhos com fartura, e tenho montado umas emboscadas, embora sem êxito, por enquanto, a uma lebre que resiste ali para os lados da minha Barroca Funda. Se todos me seguirem o exemplo, é quase garantido que o planeta retome a sua inexorável, mas muito mais lenta, progressão para a morte. Restar-nos-ão, assim, uns bons séculos em que será ainda possível recriar bucólicos ambientes virgilianos com melodiosos zumbidos de atarefadas abelhas e cabritinhos saltando em verdejantes e floridos prados ao som de amenas flautas.
Sem esta conversão, irmão, é o fim que nos espreita ao virar do século, ou já da próxima esquina, se não tivermos a coragem e o engenho de evitar os esquinosos programas de consumo dos nossos governantes.
Meimão, 13 de dezembro de 2015
Manuel Neto
Manuel Neto
quinta-feira, 10 de janeiro de 2013
Uma leitura de Histórias do Contrabando e
não só!
Em linguagem simples, por
vezes ingénua e, talvez, excessivamente despretensiosa, Histórias do Contrabando e
não só!, de Fernando Cantista
Pizarro Bravo, é, sob a forma de narrativa, um verdadeiro Ensaio sobre o contrabando raiano. Salvo referências a alguns
termos técnicos, e ainda assim remetidas para notas de rodapé, o corpo da obra
não se detém em definições nem em análises intelectualizadas à procura de
conteúdos e conceitos majestáticos, como é timbre deste género
literário-científico. No entanto, de vivência em vivência relatadas, dá-nos
conta de uma realidade que, de tão vivida, se nos torna clara como água nos
seus múltiplos constituintes e... cambiantes.
O contrabando raiano é,
nestas páginas, e visto sobre a estratificação que o tempo dá das coisas e dos
conceitos, a evidência que já há muito se vinha revelando: uma actividade de
envolvimento cósmico a que não escapa nenhum dos protagonistas da comédia
humana, no seu intercâmbio aos diversos níveis, incluindo o do sagrado. Se é concebível imaginarmos um crente guarda
fiscal a implorar a protecção divina
para o êxito da sua missão, não é menos verosímil que o contrabandista
recorra à mesma instância para o bom termo da sua actividade (págª 11), que, em
geral, a sociedade aceita com benevolência (págª 49...). Se o agente da
autoridade crê no dever patriótico de defender a Fazenda Nacional (págª 25),
também não se escandaliza que o seu vizinho faça pela vida descaminhando umas
panas, uns bezerros, ou uns caramelos, de que pouco mal virá ao mundo, se
comparado com os grandes tráficos que campeiam nas altas instâncias das
influências ...Daí que o humanismo das relações (págª 65, 75...), a sã
convivência (págª 49, 51...), sem promiscuidade, dos figurantes desta comédia
(no sentido grego, isto é, das peripécias da vida quotidiana da comunidade, por
oposição a tragédia, construída em torno dos mistérios que envolvem o destino e
as ontológicas limitações e insatisfações da alma das elites), as emoções e os
dramas partilhados quando em causa está a dignidade humana (págª 48, 53, 74...)
sobretudo a dos mais novos ou dos mais desfavorecidos, o humor das situações a
desdramatizar uma vida já por si dura e madrasta (págª 23, 31,32,39...), o jogo
da matreirice do contrabandista contra a perspicácia do guarda fiscal
desportivamente assumido por ambas as partes (págª 25, 37, 49, 67, 76...), sejam
a pedra de toque deste ambiente raiano
em que o “cá” e o “lá” nem pelo falar se destinguem (pág. 47).
Histórias do Contrabando e não só!, (numa leitura talvez subliminarmente
influenciada pela actual globalização do
comércio e do consumo sem limites e quase sem regras) apresenta-se-nos, assim,
como agente desmitificador de ideários construídos sobre estereótipos sociais e
económicos rigidamente definidos, mas de
conteúdos balofos ou sobrevalorizados, e ainda como agente desmistificador de
práticas lesivas da normalidade das relações sociais, em comunidades limitadas
culturalmente, mas estritamente unidas por laços afectivos.
Verdadeiramente inovador
nestas páginas, e digo-o entre o humor e a verdade factual..., é a definição de
uma nova categoria de mercadoria contrabandeável, a missa, exactamente essa
cerimónia celebrada por sacerdote
católico. Em tempos de transacções comerciais a propósito de tudo e de nada,
numa espiral de materialismo sem pingo de espírito que caracteriza grande parte
dos comportamentos humanos actuais, como não classificar de contrabando a
compra de missas espanholas, se ela implica a saída de divisas do País? Contra
simonia semelhante - o tráfico de indulgências - se desencadeou, no século XVI,
a Reforma Protestante, que haveria de transformar o mundo ou, pelo menos,
definir o seu progresso civilizacional. Países como a Holanda, a Suíça, a Alemanha
e os nórdicos, construiram, sobre uma visão mais humana e menos interesseira
das Escrituras, sociedades mais justas, mais democráticas (ressalvo,
evidentemente a Alemanha hitleriana), mais progressistas. Bem engraçado,
Pizarro Bravo!
8 de Janeiro de 2013
Manuel Neto
terça-feira, 19 de abril de 2011
NO CUMPRIMENTO DO DEVER
A NOSSA HOMENAGEM
20 de Abril de 1984.
Na execução de uma operação Stop na estrada Chaves-Vila Verde da Raia foi atropelado mortalmente o soldado n.º 2268/75, Joaquim Parada dos Santos.
Sold n.º 2268/75, Joaquim Parada dos Santos
Nascido em Vilar de Perdizes (Montalegre). Casado, 35 anos de idade. Quatro filhos menores. Na GF desde 1975. Toda a sua carreira nos Batalhões n.ºs 2 e 3. 1.ª classe de comportamento. 20 apreensões efectuadas.
(Da Revista "Guarda Fiscal")
"AD PERPETUAM REI MEMORIAM"
sábado, 19 de fevereiro de 2011
NO CUMPRIMENTO DO DEVER
A NOSSA HOMENAGEM
19 de Fevereiro de 1984, nove horas da noite.
Uma patrulha sai do Posto da Guarda Fiscal de Albufeira para fiscalizar a área do litoral algarvio. Cerca da meia noite é contactada junto aos acessos à praia da Falésia por uma patrulha auto da Secção de Faro. Tudo normal, no que parecia ser uma operação de rotina.
Quatro horas da madrugada. No Posto começa a estranhar-se a sua ausência, pois deviam ter regressado às duas. Iniciam-se as buscas. Dois corpos sem vida são encontrados. Mortos a tiro. Indícios de bárbaras agressões.
«MORTOS A TIRO DOIS SOLDADOS DA GUARDA FISCAL DE ALBUFEIRA - O CASO PODE ESTAR RELACIONADO COM TRÁFICO DE DROGA»
«MORTE BRUTAL NA PRAIA PARA SOLDADOS DA GUARDA FISCAL»
«ATACADOS COM FACAS, A TIRO E À PAULADA OS DOIS GUARDAS FISCAIS ASSASSINADOS NA FALÉSIA»
Estes, alguns dos títulos com que a imprensa diária retrata a tragédia.
Quem eram os dois guardas fiscais assassinados?
Soldado n.º 4817/70, Júlio Vieira Cabrita Frade
Nascido em Albufeira. Casado, 39 anos. Dois filhos menores. Na GF desde 1970. Toda uma carreira no Batalhão n.º 2. 1.ª classe de comportamento. Uma actuação traduzida em 45 apreensões efectuadas, totalizando o seu valor mais de 21 mil contos.
Soldado n.º 5158/70, Cesário José Guerreiro
Nascido em S. Marcos da Serra (Silves). Casado. 39 anos. Um filho menor. 14 anos de Guarda Fiscal, sempre no Batalhão n.º 2. 1.ª classe de comportamento. 21 apreensões efectuadas no valor aproximado de 11 mil contos.
Última homenagem. As ruas de Albufeira foram estreitas para conterem os milhares de pessoas que se quiseram incorporar no féretro. População local. Camaradas seus. Também de outras Forças de Segurança. As presenças do Ministro das Finanças, do Secretário de Estado do Orçamento, do General Comandante Geral da Guarda Fiscal.
Louvados a título póstumo pelo General Comandante Geral da Guarda Fiscal.
Agraciados com a Medalha de Mérito Militar de 1.ª Classe, impostas às suas viúvas, em cerimónia Militar, pelos Secretário de Estado do Orçamento e Comandante Geral da Guarda Fiscal.
Agraciados com a Medalha de Mérito Militar de 1.ª Classe, impostas às suas viúvas, em cerimónia Militar, pelos Secretário de Estado do Orçamento e Comandante Geral da Guarda Fiscal.
(Da Revista "Guarda Fiscal")
"AD PERPETUAM REI MEMORIAM"
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