terça-feira, 9 de outubro de 2018


Para além da eutanásia

Lembras-te? Morria-se em casa, no aconchego do lar, com os seus ao lado. Tal como se vivia: duas, três gerações debaixo do mesmo tecto, ou vizinhas.
Morria-se cheio de saúde, por uma qualquer moléstia que matava em poucos dias. Até lá, era a vida plena, cheia de carências, sim, mas não necessariamente de sofrimento.
As crianças assistiam e ajudavam nas exéquias. “É a vida”, dizia-se; sim, a vida, que envolve necessariamente a morte; a morte, um transitório momento da vida.
Velava-se o corpo na divisão maior, porque eram sempre muitos os convivas a quererem partilhar este momento da vida, a vida morte. Qualquer outro local soava a desprezo, alienação, profanação. Era, depois, simplesmente devolvido à terra, para que ela, alimentando-se, pudesse iniciar um novo ciclo. A campa rasa, para que mais depressa o corpo e a memória se diluissem no ser universal que partilhamos.

Sempre insatisfeitos, ocorreu aos humanos que poderiam prolongar, por mais algum tempo, essa vida vida, depois de a considerarem escassa para usufruirem de tantos e apetecíveis bens terrenos. Havia os arautos da verdade revelada, que, há séculos, nos anunciavam a morte como pórtico triunfal que dá acesso ao jardim das inefáveis delícias celestiais. Havia o discurso dos filósofos, que faziam da vida o bem supremo, enquanto digna. Porém, nem, por ironia, os primeiros, que prometiam o prazer dos sentidos para toda a eternidade, nem a dignidade evocada pelos segundos, marca que deveria ser distintiva da nossa raça de criaturas, foram motivo bastante para deixarem que a Natureza desse livre curso à suas leis.

Prolongar a vida passou a ser a palavra de ordem em todas as instâncias: a ciência, que, na demanda insaciável de causas e efeitos, ameaça invadir o próprio domínio das últimas causas, reino da filosofia; os governos, que por todos os meios se esmeram no afã de criarem as condições para a felicidade imediata dos seus súbditos; os industriais, que, sempre atentos às intermitências dos mercados, não descuram as oportunidades do lucro; o indivíduo, que, simultaneamente agente e paciente neste palco de relações, presunçosamente se tem como princípio e fim da ordem do Universo... E, como pano de fundo, talvez o sonho da imortalidade, que, desde a tentativa falhada do pecado original, nunca mais deixou de interferir no nosso subconsciente coletivo.

Foram admiráveis os resultados de tanta porfia, expressos num extraordinário aumento de esperança de vida, sim, de qualidade. Mas, simultaneamente, extraordinário foi também o aumento do tempo agónico, aquele em que as faculdades e capacidades irreversivelmente se degradam, ao ponto da total dependência de um cuidador. Esse tempo, antes escasso, é agora prolongado ao ritmo das máquinas, das técnicas, dos fármacos, que entre si competem na composição dos elementos que mantêm, ad nauseam, esse sopro vital, tornado valor absoluto até ao último suspiro. Apesar do sofrimento atroz que se adivinha na imobilidade do corpo e no alheamento do espírito. Apesar dos dias... dos meses... dos anos de olhar perdido e vazio de sentido e de esperança.
Hipocritamente, a sociedade, ou seja o Estado, adoptou algumas estratégias para lidar com o problema. Por norma, espera que o familiar mais próximo preste os cuidados necessários, atribuindo, mesmo, incentivos por isso, ou até a colaboração dos serviços de saúde. As famílias sabem, porém, que esta primeira instância é, hoje, condicionada por incompatibilidades com obrigações profissionais no mercado de trabalho, e que, havendo disponibilidade, na maior parte dos casos rapidamente sobrevém o esgotamento do cuidador, tal a dependência extrema a que chegam muitos idosos. Segue-se o internamento num lar, com redobrada hipocrisia agora designado “ ERPI” (Estrutura Residencial para Idosos): momento este doloroso e angustiante para os familiares, que não mais se libertarão do sentimento de culpa por “abandono” de um ente querido, e para o idoso, que se vê depositado na antecâmara da morte.

Poucos de nós haverá que não conheçam o dramatismo desta realidade e o que ela contém de obsceno. Mas se não for esse o caso, vá o leitor a uma dessas estruturas (representante da maioria que cobre o País, não daquelas poucas que têm por detrás grandes investimentos financeiros e só acessíveis a uma restrita elite...) e diga se não é a morte que espreita a cada porta e se senta no vazio que rodeia os que ali debilmente se prendem à vida. Felizes aqueles que, em tal cenário, já não dispõem das faculdades cognitivas... e simplesmente vegetam, porque para os que ainda têm  olhos para ver, ouvidos para ouvir...e juízo para ajuizar, mais lhes valera a morte que tal sorte!

Não me lembro de filósofo ou cientista que se tenha questionado sobre uma lacuna que me parece congénita ao nível da inteligência humana: a incapacidade de planear a longo prazo, ou seja, colocando o problema ao nível da espécie, a milénios. Mais que qualquer outro animal superior, o Homem juntou ao instinto novos estratagemas de sobrevivência e de mobilidade, disseminou-se pelo planeta, depradou indiscriminadamente, poluiu, proliferou em número só superado por alguns animais que, para seu próprio proveito, domesticou. Suspendeu-se alguma vez o Homem em reflexão sobre as consequências dos seus actos, que assim o levaram ao domínio soberano sobre a Terra? Não. A lógica dos seus compromissos foi sempre a do carpe diem, tão deliciosamente vivido por todas as personagens desta comédia humana: desde o clã familiar que procura o domínio em número, posse e território que lhe assegurem o bem estar dos seus membros, ao cientista que exulta com a resolução do problema que aflige o nosso dia a dia, ao político que persegue a cada minuto o crescimento da economia, e, até, ao poeta modernista que, para êxtase dos contemporâneos, cria a “Ode Triunfal” (Ricardo Reis) em louvor das rodas e engrenagens saídas da Revolução Industrial! r-r-r-r-r-r-r-r-r-r-r-r-r-r-r-r-r-r-r-!

Verdade seja que apareceu um Thomas  Malthus (segunda metade do sec. XVIII) a reflectir sobre o impacto que tem o crescimento da população mundial, que se processa em progressão geométrica, na qualidade da nossa existência. Mas fê-lo já sobre o acontecimento, e apenas conjugando o tema com a progressão aritmética na produção de alimentos, que assim se tornarão insuficientes. De fora, ficaram factores, hoje decisivos, e altamente condicionados pela acção dessa espécie dita inteligente que profusamente se instalou por toda a superfície planetária, como o equilíbrio ambiental, a biodiversidade, o aquecimento global... E a culminar tal ramalhete de efeitos, nunca previstos em tempo e muito menos planeados, esta obsessiva perseguição da imortalidade, que a todos nos põe às voltas com a eutanásia.


Parede, dia de S.ta Pelágia,virgem e mártir
Manuel Antunes Neto

sábado, 24 de março de 2018




DISCURSO PROFERIDO NO 18.º ENCONTRO (20.º ALMOÇO) DOS OFICIAIS DO QPv.DO BATALHÃO N.º 2 DA FISCAL, EM ÉVORA-CASA DO POVO DE CANAVIAIS

A 17MAR2018


   Aprendi a escrever era ainda miúdo, aí por volta dos meus sete anos de idade. As primeiras letras que procurei desenhar com um lápis no caderno ou, com o ponteiro na lousa, foi trabalho árduo, tarefa pesada para criança tão pequena, um esforço tremendo com a mão emperrada que a custo se movia e, se movia, era graças à ajuda de minha mãe que com a sua mão apoiada na minha, a fazia deslizar consoante a letra a moldar.   Quando já convencido de ser capaz e me punha no papel a rabiscar o 0 que é tão fácil de fazer, mais me parecia um girino a brincar no charco com lodo de água estagnada e, o i que até criança de menor idade, hoje, o faz na perfeição, mais se assemelhava a um pirilau empinado, com pinta e sem cabeça. Desse tempo da escrita torta e enviesada, lembro bem como admirado, pasmado ficava com as letras da professora que estampava no quadro negro a servir de modelo, traçadas a preceito, tão redondinhas e tão explícitas, tão certinhas e tão perfeitas! Mais recente, quando os médicos possuíam a liberdade de prescrever a medicação em receita por si gatafunhada vendo-a aflorava-me à mente, tantos anos depois, o traço rigoroso daquelas letras traçadas no quadro da sala de aula comparando-as com os hieróglifos traçados no papel da receita e cismava como era possível o pessoal da farmácia descodificar a mensagem cifrada, sem que trocassem alhos por bugalhos, se é que alguma vez tal não tivesse acontecido. Com certeza, foi por isso, que alguém tendo-o percebido, impôs receituário a letra de computador! Na minha meninice já se dizia que "Deus escrevia direito por linhas tortas"! Eu, não. Escrevia torto por linhas direitas. Usando cadernos com as duas linhas paralelas à distância de 3 milímetros que se intervalam quase de centímetro a centímetro ao longo de toda a folha, via-me atarantado para ali meter as minúsculas sem que uma ou outra letra extravasasse os limites impostos. Bem vistas as coisas, mais de metade das 23 letras do nosso alfabeto são esguias e altaneiras com permissão forçada de ultrapassar tão limitado espaço que é, afinal, só reservado à minoria. Claro que nessa altura, ainda se não escrevia o k, o w e o y, letras que não sendo merecedoras de se incluírem no abecedário oficial, eram utilizadas, todavia, às escondidas, de uso disfarçado como quem teme por vergonha expô-las a público. O K para símbolo do quilograma com o g; o W para o nome de um colega meu chamado Walter, assim mesmo registado e o Y a que lhe chamavam também i grego, para Yvone uma moça de seios grandes, nascida no Brasil, filha de pais Portugueses que emigraram e, que, de vez em quando vinham de férias para a aldeia e a quem lhe chamavam "os brasileiros" que logo se reconheciam pelo pai dela andar sempre vestido de branco, fosse inverno ou Verão. Enfim... à custa de muitas cópias e ditados, de zangas e palmatoadas, senti que já era capaz de ler e de escrever. No liceu já, quando um dia a professora de Português, ao começar a aula mandou, de surpresa fazer uma redação sob tema que enunciou: - "Faça o seu auto retrato” -. Pensei e logo concluí que ter de abordar ser alto ou baixo, gordo ou magro, bonito ou feio, jeitosinho ou mal-azado, era matéria que a elas compete julgar e não a mim a ter de o dizer. Assim, resolvi contornar o tema, optando por divagar, fantasiando ao sabor dos sonhos meus como era tanto do meu agrado. Quando se entregaram os trabalhos, a "sotôra” chamou-me ao estrado, impôs que me voltasse de frente para a turma e, em voz alta, ato contínuo, pôs-se a ler a minha redação que no final me disse não concordar pela distorção que ao título cometi mas... bem sei que ela gostou. Ao sairmos da aula, alguns dos meus colegas, incrédulos ainda, perguntavam-me desconfiados se fôra eu a escrever aquilo. Que satisfação a minha e que vaidoso fiquei! Inchado de tanto orgulho foi sentir-me bonito o bastante para meu auto retrato. Depois, no 6.º. Ano, a matrícula só poderia ser por opção, Letras ou Ciências e eu claro, face às circunstâncias, escolhi, como não poderia deixar de... Ciências! Letras? Só na sopa e na canja de preferência! Mais tarde, quando já no Porto frequentava a faculdade de Ciências, passava mais tempo no Café Diu que na residência onde habitava. Não havia dia que passasse sem ir ao Café. Então, sentado numa mesa, ou com colegas, estudávamos ou fazíamos por isso. Eu escrevia, escrevia muito e muito gostava de escrever. Escrevia longas cartas de amor, cartas de amor inspiradas mas, de amor falseado já que o não possuía em quantidade para o dar a tantas que escrevia, deixadas ao acaso e em suspenso pelos vários sítios por onde andara. A meio da escrita entrava no Café outro frequentador assíduo, advogado, professor, estudioso do folclore português, poeta conhecido já, com versos que a Amália haveria de cantar, um senhor de ar composto, distinto no trajar, com fato e gravata sempre, era o Pedro Homem de Melo. Diziam que era gay e que tinha um filho chamado Salvador. Nunca o confirmei e que importava isso se só conversas, o convívio e a tertúlia interessava!? Cá por mim nunca fui alvo do seu assédio, nem nunca me apercebi que assediasse fosse quem fosse. Tinha uma tara, isso tinha. Engraxava os sapatos tantas quantas as vezes que entrasse no Diu. O rapaz que por ali andava com o caixote de mesa em mesa à procura de quem quisesse engraxar, logo que o via entrar ia a correr ao seu encontro e mais outra engraxadela ainda que o tivesse feito 5 minutos antes. Eram assim os meus dias felizes passados na cidade, repartidos entre o Café e a residência, entre os cinemas e a faculdade. Mas dia, quando escrevia, desta vez num exame a decorrer, fui subitamente interrompido por um funcionário da Universidade comunicando-me que terminasse rápido o exame, findo o qual deveria telefonar ao oficial de dia do RI 13, em Vila Real, para me inteirar dos pormenores, dado que, estando mobilizado para Angola, deveria estar no dia seguinte na Escola Prática, em Mafra... Mundo que eu pensava ser meu ruiu ali em segundos, em frangalhos como destroços que ficam passada a tempestade! Que tão pouco somos nesta vida vivida com o desenho feito a gosto, que um pequenino traço, nele traçado por mão alheia, num ápice, lhe muda logo e tão profundamente a feição. Sinto-me como objeto inerte que, sem serventia já, é lançado ao lixo por tão incómodo e já inútil. Sou, garantidamente, a acha atirada por mão invisível à secura do matagal atiçando um fogo que, alastrando, irá queimar, destruir, horrorizar, matar. Em 1961, cheguei a Luanda, integrado na Companhia de Caçadores 135, do Batalhão 132. Em desfile ao longo da avenida marginal, somos recebidos com palmas por um montão de gente branca, que a enche e que em nós só vê a salvação como côbro da barbárie que grassou e continua nas roças e fazendas do norte daquela, então província, segundo relatos pungentes de fazendeiros fugidos chegados à capital. Com alguns dias em instalações improvisadas em Luanda, todos os oficiais do Batalhão são chamados ao quartel general onde pessoal atarefado parece afadigar-se com as informações e operações em curso. Reunidos, ali nos foi dito, taxativamente: vós que ides partir para o norte, escrevam, escrevam e informem-nos do que se passa por ser tão pouco o que sabemos de tão escassas as informações que nos chegam. Parti e escrevi. Escrevi a dor que não queria com o amargor do que nunca pensei ser capaz. Escrevia, dia a dia, num caderninho de linhas simples, sem a ajuda de minha mãe mas, com o pensamento nela, adivinhando o quanto sofreria e sofria muito como muitas mães que, então, sofriam Registei no papel os lamentos daqueles que ali sofriam também, os gritos desesperados que ouvi, as súplicas de quem padeceu e padecia ainda. Serviçais negros, acordaram um dia de catanas afiadas, martirizaram os patrões, violaram as mulheres, dizimaram os filhos. Os corpos mutilados, profanados espalhavam-se pelo terreiro, deixados propositadamente para causar terror. Terroristas que ainda ontem haviam brincado, sorrindo àquelas crianças. Terroristas que ainda ontem embalaram aqueles bebés ou, ao colo os adormeceram. Terroristas sim, mil vezes terroristas, terroristas que depois munidos com as catanas e canhangulos nos esperavam escondidas ao lado dos trilhos por onde apeados seguíamos ou, camuflados nos caminhos de terra batida nos aguardavam, cavando no chão valas tapadas de arbustos e ramos que engoliam os jeeps morrendo os que neles seguiam e, assim se apoderarem das suas amas, cunhetes e munições. Com elas, depois, montavam emboscadas, atacavam de dia ou de noite em locais para nós tão estranhos e para eles bem conhecidos. Sobre isso tudo, ia escrevendo, escrevendo tudo mas, nunca consegui encontrar que traduzissem com rigor aquele pressentimento da morte possível ao atravessar a mata densa; o suplício sufocante que nos acompanha ao longo da picada protegida de capim alto de um lado e do outro; a aflição que fere na expetativa da suposta emboscada e da sorte que se espera nos tiros que se ouvem dirigidos a nós, provindos do nada; aquele calafrio que queima quando seguimos envoltos no silêncio da noite por caminho ignorado, sem fim e sem destino e o silvar do vento nas copas do arvoredo mais parece ronco de Adamastor. Salvo de uma guerra que não esqueço, ingresso na Guarda Fiscal de quem serei servo até que morra de ignomínia, esquecida, desprezada e, por culpa de muitos que, julgando servi-la a espezinharam sem saber. Como serviçal que sou, obediente, cumpridor e atento, dela vou cuidar com desvelo devotado, redobrando os cuidados quando, já enferma, deles mais vai precisar. Nela fui quase tudo e não fui nada. Nela muito escrevi, escrevi muito e de nada valeu a pena. Relatórios, informações, notas e ofícios, pareceres, despachos, propostas, de procedimento, juízos de valor e de nada valeu a pena. Benquisto e desprezado, fui louvado e punido, fui professor e aluno, elevado aos píncaros da fama, vertido nas ruas da amargura, subalterno e comandante, fui julgado e absolvido, inocente e culpado. Fui quase tudo. ... e não fui nada!

Exmas Senhoras
Exmos Coronéis
Exmos Ten Coronéis
Senhores Capitães,
Tenentes e Alferes
Amigos e Camaradas
O meu último escrito oficial data dos princípios de 1993, quando redigi uma crónica destinada à Resenha Histórica do Anuário para 1992 do Bat .1, a qual foi proscrita pelo coronel comandante de Batalhão ou, quiçá, concordante com um brigadeiro, comandante da Guarda Fiscal pelo medo que tal escrito pudesse abalar potencial lugar de conforto reservado ao coronel ou, à eventual alienação do poiso já criado para o brigadeiro, no que resultasse da reorganização que já se adivinhava. Tal crónica nunca foi publicada nem lida, apenas, por mim guardada como relíquia. Dividida em 3 capítulos, só os 2 primeiros continham o motivo da proibição, já que o terceiro só alude ao publicado em Diários da República. É aquela parte, pois, que vos vou ler, submetendo- à vossa censura. Se acaso, entenderem, que o texto é mal educado, ofende a moral, incita à revolta, viola a lei ou, ataca a hierarquia, peço-os o favor, então, de o não escutar!

A EXTINÇÃO DA GUARDA FISCAL
1. Introdução
O ano de 1992 ficará decerto na Hist6ria e, mau grado nosso, corno o da "Morte Anunciada" da Guarda Fiscal. A Corporação vetusta, já não possuía força anímica indispensável para vencer os escolhos que nascem, se criam ou moldam com o decorrer do tempo. Tal como a máquina sem manutenção acaba por ceder, também a GF vai sucumbir, naturalmente, por falta de sopros vitais que não teve quando se impunham (e deles necessitava) ou, vá Iá, se porventura fracos, foram com certeza sem perícia ou, sobremaneira inadequados. As Forças Armadas e por arrastamento as Forças de Segurança estão subordinadas ao Poder Político. Entendeu o Governo por razões que lhe assiste, extinguir a Guarda Fiscal e integrá-la na GNR na sequência da reestruturação das Forças de Segurança preconizada desde há algum tempo já. Não nos compete, nem nos cumpre discutir intenção governamental, mas nada nos impede de manifestar a surpresa de tal decisão e interrogarmo-nos do seu porquê. Ignoramos os motivos que levaram ao intento e, por isso, baseamo-nos nas declarações pÚb1icas, quer do Ministro da Administração Interna, quer do 1.º Ministro sobre tal matéria, para fazer uma ligeira análise do facto. 0 1.º Ministro afirmou que seria irracional manter a GF e o Ministro do MAI que, com a integração de Portugal na Comunidade Europeia atenuaram-se as tarefas até então atribuídas à GF e, ainda, estar afeta à Direção Geral das Alfândegas e à Direção Geral de Contribuições e Impostos, o controlo do IVA. Com efeito, não podemos acreditar que estes motivos sejam a razão fundamental da já citada decisão do Governo. Ressaltam imprecisões para as quais não encontramos uma razão plausível. Primeiro, por considerarmos incompatível a missão da GF com a da GNR. A GF é, essencialmente, uma Polícia Fiscal com o contorno nítido de preservar e fortalecer a Fazenda Nacional e a GNR uma Força de manutenção da ordem pÚb1ica, tal como a PSP. Tanto que assim é, levou a que o Ministro do MAI determinasse, no âmbito da reestruturação manter a GNR em determinados locais em detrimento da PSP e vice-versa, o que demonstra claramente que aquelas duas Forças se substituem, das quais fica arredada a CF. Segundo, por não se entender que sendo essencial a afetação do IVA à DGA e DGCI estas o possam efetuar no terreno sem que as acompanhe uma Força de Segurança que, por razões óbvias ser a GF a escolhida. Por outro lado a GF é ainda solicitada por outras Instituições para uma colaboração que tem sido profícua com resultados significativos e altamente reconhecidos e a sua extinção não dispensará igual apoio por outra qualquer Força. Vamos então admitir a existência de uma estrutura disforme, pesada da Corporação não consentânea face ao novo figurino Europeu. Eis-nos pois, chegados ao cerne da questão. De facto, as regras comunitárias configuram o arquétipo mais aligeirado, firme e profissional da GF. Todos o reconhecemos necessário, como necessária e imperiosa se conjeturava uma reestruturação cabal. Uma reestruturação que definisse novas regras, estabelecesse tarefas refundidas dos apoios prestados, cumprisse a missão traçada para prestígio e bem da Nação. Extinção não. Não porque não se justifica. Não, pelo muito e, principalmente, pelo respeito devido a muitos que contribuíram para a dignificação da pátria e, até do Governo. Mas... assim o entendeu o Governo. Resta-nos, pois, em jeito de súplica, orar o hino da Morte Anunciada!
2. Hino da Morte Anunciada
Ao longo dos seus 107 anos de existência, a GF na salvaguarda dos interesses Nacionais, majestosa e aprumadamente serviu a Monarquia e... com idêntica postura, ardor e afinco o faz na República. Outrossim, isenta de sectarismos, labuta para a missão que sempre cumpre na Ditadura e... com a mesma firmeza e humildade, repete-se na Democracia. E a tudo resistiu...
Ao longo dos seus 107 anos de existência, a GF albergou no seio Homens de arrebitada têmpera que a serviram com honra e dignidade, paladinos do lema gravado no carácter de "vale mais quebrar que torcer" homens de índole exacerbada que dela se serviram com mesquinhez e subserviência, arrogantes e fúteis, energúmenos devotados às fáceis seduções. E a tudo resistiu...
Ao longo dos seus 107 anos de existência, a GF foi sujeita a mú1tiplos dispositivos, a diversas implantações e a serviços variados e... no entanto, ao calor e ao frio, com ou sem aconchego, com muitos ou com poucos, bem ou mal instalada, nunca deixou de trilhar com afã, o percurso que lhe estava traçado e jamais deixou de ser quem era. a tudo resistiu...
Ao longo dos seus 107 anos de existência, a GF calcorreou montes e vales, encharcou-se à chuva, secou-se ao vento, banhou-se em praias, estorricando-se ao sol. Perseguiu presas em terras de ninguém, gelou-se, postada em silêncio, nas caladas da noite espiando vilões até ao romper da madrugada. Molestou salteadores de arcas empacotadas e, apalpou até, o reino cruel, sinistro e pungente das ilusões viciadas. Mas houve também, os rastejantes da sombra, trapaceiros do luar, ímpios de pacotilha tresmalhados em logros de miragem, molhados na lama e secos de moral, banhados de perfídia e torrados na vergonha. São os vendilhões do Templo, Judas atraiçoando o Senhor. E a tudo resistiu...
Ao longo dos seus 107 anos de existência, a GF estrela vigilante de infrações a cometer e lenitivo de peste fraudulenta que grassa e corrói o País, arrecadou bens para o bem do erário público e repôs o lícito em labirintos de astúcia. Exaltada por feitos conseguidos, encimou colunas de jornais e, adejando no éter, constou na TV. De mãos dadas, afoita e fraternal, colaborou com Instituições Nacionais em multifacetados ilícitos e, transpondo a raia, igualmente o fez com congéneres estrangeiras. E... no entanto, por inveja ou malquerença, ódio ou presunção de incautos, desprevenidos e ignorantes foi, simultaneamente, criticada, amesquinhada, vilipendiada, abandonada.
E a tudo resistiu...
Com efeito...
Ao longo dos seus 107 anos de existência a GF a tudo ia resistindo, por embalada nas ledas fantasias reais, disfarças em folhetins de labor
... Ao longo dos seus 107 anos de existência, a GF a tudo ia resistindo, por amalgamada de humildades descabidas e balofas presunções, ter refletido imagens de servidão não servindo de nada.
... Ao longo dos seus 107 anos de existência, a GF a tudo ia resistindo, por trespassada de gente que passa, repassa e torna a passar em simbiose de quimera, ideias refreadas, ódios à mistura e soluções apresentadas sem qualquer representação.
... Ao longo dos seus 107 anos de existência, a GF a tudo ia resistindo, por adormecida na doce acalmia da brisa suave pressagiada em vento de mudança.
... Ao longo dos seus 107 anos de existência, a GF a tudo ia resistindo, por não bastar, tão só o uniforme azul cinzento aos brados ressonantes no azul celeste: PELA PÁTRIA E PELA LEI.
E... não resistiu...
Acabei de ler o que estava escrito e reprovado que foi por quem nada percebia de Guarda Fiscal. O que deveria ter escrito, isso sim, era a denúncia da mesquinha inveja sentida por esse execrando ministro de nome Manuel Joaquim Dias Loureiro ao aperceber-se do risco latente que o ameaçava pelo afeto que o patrão Cavaco Silva lhe votava e que, agora, implacável se desviava para o colega de governo Fernando Nogueira, muito bem conceituado pelo êxito estrondoso que obteve na limpeza dos coronéis. Nos seus malfadados pensamentos, Dias Loureiro deveria ter meditado que para se reabilitar, reconquistando a estima de seu amo, seria fazer o mesmo, isto é, a reestruturação nas Forças de Segurança, as quais sob seu mando, seria fácil de cometer. No princípio hesitou muito se, acabar com a PSP ou a GNR mas, depressa se convenceu do rumo a seguir, já que, para quem como ele, tão manhoso e servil, a bajulice é trunfo a considerar. A PSP daquele tempo sei, era exímia em esconder a sua inépcia, transformando a incompetência em pompa para inglês ver. Entrosada nos corredores do poder que bem sabia seduzir com manobras de diversão, simples lhe seria conquistar a simpatia de quem manda. Não seria, pois, Força a abater. A GNR, refeita do amargor e má reputação, trazidos pelo acolhimento de Marcelo Caetano e recomposta das bordoadas na frontaria do seu quartel principal como castigo da desobediência a Salgueiro Maia, torna-se cada vez mais precisa. dada a sua implantação no terreno, para suprir mazelas e impor ordem neste país desaustinado. Depois e, como importante, é ter sentinelas na Presidência, guardar costas a entidades e fazer segurança a moradias de ministros mesmo que tenham cães. Além disso tem charanga a cavalo, ainda outros cavalos esbeltos, cavalos em quartéis recolhidos onde fazem estrume. Estrume para terras de quem o pede. Também eu o recebo que, pessoal indicado me traz em carrinhas quase cheias e que, ele próprio descarrega, sem gasto meu de um cêntimo sequer. Era, então, convicção minha que não seria Força que acabaria e, ainda bem que não acabe. por causa do estrume! Só nesta altura, o ministro já convencido do que quer, se lembra da Guarda Fiscal que, sacudida das Finanças, por ele é recebida de mão beijada, e mal conhece e nunca ou pouco dela ouviu falar. Sem proteção e ninguém que a defenda, tem a agravante de não ter passado de esplendor aos olhos de quem decide e bem por culpa de quem a comandou. Comandantes Gerais que optaram sempre por mera Guarda tranquila, apagada e amorfa, porque aprendendo, tão só, artes de guerra, temiam uma dinâmica e vivacidade maiores implicando mais obediência à doutrina específica, eles que a ignoravam, nunca saberiam gerir. Eis, pois, a Força a abater. Todavia, como desistir é próprio dos fracos e a esperança é a última a morrer, haverá que lutar, tanto mais que nestas questões de política, o conhecimento, o favor e compadrio são fatores a considerar que, com toda a facilidade, são capazes de virar o bico ao prego. É chegada a altura de eu e o Vitória criamos a primeira PPP. Parceria, porque nós ambos; Público, porque queríamos que o intento chegasse a público e, Privado, porque não importava saber quem os autores. Sem demora, arrancámos em direção ao jornal "0 Independente", sendo recebidos, cortesmente, pela sua Diretora Helena Sanches Osório que sabedora ao que íamos logo anuiu e nos encaminhou a um jornalista que se encarregaria do artigo onde se vincasse o descontentamento e revolta dos oficiais pela insemina— gão a praticar. Só um senão da Diretora, artigo só seria publicado satisfeita a ressalva deontológica própria do seu jornal em ter de obter o contraditório, ouvindo o brigadeiro. Publicado em 3 de Março de 1993, em 4 colunas, é assinado por Pedro Guerra que assim o titulava: “ BRINCAR COM A GUARDA - Mais de cem oficiais da Guarda Fiscal reuniram-se na passada semana em Cascais. Contestam cada vez mais a sua integração na GNR e o facto de o seu comandante-geral não “zelar" pelos interesses da Corporação. A coisa está feia". Entendíamos não chegar que uma notícia de jornal surtisse o efeito por nós desejado e valendo-se dos conhecimentos partidários, em especial do Gamboa Marques e do seu PS do coração, falou-se ao deputado Jorge Lacão para zurzir no Parlamento quanto ao descalabro da extinção da Guarda centenária que ele bem compreendeu, aprovou e assim o fez e só quem não quis ou pôde o não ouviu em telejornais da TV. Mas... isto de atrair gente influente para causa própria, era experiência vinda do antecedente cujo ensaio havíamos tido no pós 25 de Abril. Saneado o Gen. Mário Silva, Comandante-Geral e passando à reforma o então 2.º Cmdt Geral, Coronel Patrício Calado, ficou a comandar interinamente a GF o Cor. Custódio Nunes, homem experiente e dela conhecedor que há muito a servia. Receando nós que nos colocassem qualquer oficial general inconveniente ou de gancho para comandante, víamos naquele coronel a pessoa indicada para o cargo, desde que fosse promovido como condição necessária para tal. Ora, entram em campo o Gamboa e o Vitória, ativistas sempre atentos que me empurram para ir falar ao General Loureiro dos Santos, então Vice-Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas como pessoa capaz de poder acelerar a promoção do coronel Mas porquê eu, pião das nicas, e não eles? Apenas pela pura casualidade do Gen Loureiro dos Santos ser filho do cabo da GNR que comandou o posto de Vila Pouca de Aguiar, o concelho da residência de meus pais e que meu pai bem conhecia pelos contactos que com ele tivera por via dos negócios que exercia e manter boas relações com a autoridade local é ato de bom senso e cortesia. Poderia ser, quem sabe? que o rapazito que por ali andou, agora general, movido pelo conhecimento da estima entre os nossos familiares o comovesse a tudo largar de imediato e, e por instinto, logo providenciasse à promoção! Lá fui e embora na altura, a cotação de capitão fosse superior à de general, ele ouviu-me atencioso e prometendo conceder o óbolo que o pedinte sempre espera. O Coronel cansado de esperar pela promoção nunca chegada, pediu passagem à reserva e foi-se embora. Porém, a situação de que a Fiscal agora enferma, afigura-se séria e bem mais grave a requerer tratamentos específico, medicação apropriada cuidados paliativos que reputamos insuficientes quer pela notícia de um jornal, quer pela oração expedita de deputado diligente. Queremos ainda mais, ir mais longe, mais alto e mais além. Dada a circunstância de ter na altura, uma estimada prima casada com o Vitor Ramalho conselheiro e amigo pessoal de Mário Soares, ser seu assessor e assistente na Presidência, era parentesco ideal que tudo poderia alterar. E logo o utilizo com o apoio e incentivo, uma vez mais, do Gamboa e do Vitória que me pressionam e me apressam para a diligência que apraz. Telefono-lhe e peço-lhe que motive o Presidente a não promulgar o Decreto prestes a Iá chegar, pela incongruência que se há-de verificar, acarretada pele extinção de uma Guarda a ser noutra integrada. Não é com surpresa que dias volvidos recebo o telefonema de volta em que me informa não estar o Presidente em condições para desagradar, levantando conflitos com o 1.º Ministro Cavaco Silva, pelo que, ainda que contrafeito, iria promulgar o diploma. 0 26 de Junho de 1993, é sábado Logo num sábado quando se goza o lazer de um fim de semana tão esperado... Logo num sábado quando mais se está arredado das preocupações provoca das pelo dia a dia do trabalho rotineiro... Logo num sábado quando o pensamento se liberta, a distração é maior e maior o relaxamento... .Logo num sábado quando a bonomia mais ressalta nas pessoas por mais desprevenidas e descansadas... Logo num sábado é que se aproveita, corno a medo e à traição, para se publicar no Diário de República, o Decreto-Lei 230/93 que extingue a Guarda Fiscal. Acabou-se. Já de nada vale escrever e, se o fizer doravante, só para criticar, maldizer, denegrir, contrapor e por mais que procure não encontro verbo de tema em “ur”. Se existisse, aqui o estamparia também para que, não só com as vogais todas mas também, com todas as letras pudesse traduzir o desprezo e raiva que senti. Sou, deveras, um perdedor... perdedor em toda a linha. Perdi em tudo... tudo em que me meti. Ignorado por general que a pedido feito, não logrei; desprezado por brigadeiro que em nada acreditou e a tudo se opôs, magoado com o parlamento que nem votou, nem maioria conseguiu a aprovar proposta de parlamentar; revoltado por um artigo de jornal não conseguir convencer um povo à greve, tão pouco a qualquer manifestação; chocado com um primo afim, por incapaz de conseguir o veto presidencial; desolado com o presidente por promulgar o que não devia. Sou, deveras um perdedor em toda a linha. Perdi em tudo. Em udo em que me meti. Ignorado, desprezado, magoado, revoltado, chocado e desolado, só me resta o desterro como castigo do que perdi. Foi aqui, neste Alentejo, neste Alentejo meu de outrora, onde se não apagaram as lembranças do que vivi. Neste Alentejo encontrei refúgio e onde me escondi, abandonando tudo aquilo e os outros... Sim os outros todos que Iá ficaram. Ossadas da Guarda Fiscal... serão em breve triturados e transformados em farinha, farinha misturada, farinha do mesmo saco. Aqui estou, convertido em agricultor a brincar, agricultor brincando mal distinguindo o ancinho de um arado que, com o estrume que dão, estrume de cavalo, o lanço à terra na terra que trabalho à jorna e diversão onde manhã ao sol pôr. Lanço as sementes à terra e, até parece milagre, nascem coentros, salsa, os nabos e as nabiças. E que feliz aparento ser! Às vezes... e, sou muitas vezes enganado, o grelo parece arrebitar e por mais que eu me esforce, já não arrebita mais. Porém, o meu maior azar é com a cenoura... bem a rego e bem tento e, por mais que amacie a terra, nasce sempre torta, recurvada e não a consigo endireitar. Ponho-me a cismar cá comigo por tão má sorte e, sem encontrar explicação, interrogo-me se a culpa será da terra ou de mim já sem jeito. Na altura própria, planto a cebola, os alhos, o pimentão e os tomateiros e, chegado o verão, que delícia... exponho os tomates ao sol... e que feliz aparento ser: Depressa avermelham, já que o tomate quer sol pela cabeça e água pela raiz e, todo o cuidado é pouco, e preciso cobri-los que este sol abrasador, descarado e sem vergonha, os queima, queima mesmo. E que regalo colher da árvore, a laranja cheiinha de vitamina, a melhor vacina precavendo da gripe que os frios de inverno sempre causam ou, colher o cacho de uvas douradas, tirado à videira tão viçosa em pleno verão. E que feliz aparento ser! Depois, hei-de colher outra fruta de árvores que já plantei, magnórios da nespereira, alperces do damasqueiro, as peras da pereira e maçãs da macieira. Só não colho peros que, pereiro não existe e ninguém conhece para que se não diga que peros não são maçãs ou, que peros são peros e maçãs são maçãs ou, as maçãs não são peros, já que os peros são maçãs. E as discussões mantinham-se acesas e acaloradas sobre a origem do pero, na messe de Alcântara à hora do almoço quando, um simples copo de leite era almoço empanzinado do Vitória. Almoços, pois claro! Não é só trabalho de campo. Todas as semanas em nossa casa, eu e minha mulher, temos refeição requintada com os filhos , netos e neta. É o prazer do convívio com a família reunida. E que feliz eu sou, sem ter de o aparentar! Almoço foi também, este nosso de hoje, dia 17 de março. Se recuássemos, pelo menos, 27 anos, a esta hora, provavelmente, já teríamos assistido ao desfile das forças em parada, na Praça do Geraldo e ouvido o discurso inflamado do comandante apregoando aos ouvintes, lérias para enfeite do Dia do Batalhão. Loas que, uma assistência não muito numerosa, ouvia em silêncio com acenos de cabeça, às vezes, como que a convencer que estava convencida de tudo quanto ouvia. E o comandante, com a mesma toada, continuava no seu longo desfiar: 369 apreensões, no valor de 427 milhões, 253 mil e 019 escudos, correspondentes a 15 vacas tresmalhadas por doença e provindas de Espanha, em Tagarrais, Secção de Arronches; 28.800 cigarros com filtro da marca Marlboro e a boiar no mar a meia légua de Meia Légua da Secção de Olhão e 54 pares de sutiãs XXII, contrafeitos com a etiqueta da "Intimissimi" que ciganos vendiam no mercado de Tavira e destinados a senhoras de S' s grandes. Discurso acabado e mais ou menos coisa, entidades e convidados rumavam para um almoço, almoço nunca feito nesta Casa do Povo de Canaviais. Edifício, ao que parece, construído em 1911 por um grupo de agricultores agrícolas destinado a escola de seus filhos. Com o rodar do tempo e integrado no Estado, passou a designar-se Casa do Povo de Évora com objetivos de caráter cultural, social, desportivo e recreativo que, ainda hoje se mantêm no seu estatuto e, pouco tempo depois assumiu o nome da freguesia onde se implanta: Canaviais. Em 2007, uma senhora acabada de aposentar e, aqui presente, não querendo ficar em casa a tratar dos filhos e a coser as meias do marido e, porque os filhos já crescidos não requerendo cuidados especiais e o marido as não tivesse e, mais pela força do seu irrequieto dinamismo, candidata-se à presidência da Casa do Povo com dois fins a atingir: estancar a enorme dívida que gerências anteriores a haviam mergulhado e gerar fundos destinados a melhorias que o edifício tanto carecia. Findos os 4 mandatos e conseguido com satisfação ao que se propôs, transita a presidência para a atual. Outra senhora, dotada de igual vivacidade que, prosseguindo o mesmo trilho, tem conseguido que se colham efeitos desse tão grande esforço. aqui que se realizam em janeiro, concursos para o melhor vinho, sopa, doce, licor e compota, artigos regionais avaliados por júri profissional e independente. Como naturalmente observaram, letras garrafais ocuparam parte da 1.ª página do "Diário do Sul", noticiando que a sopa de mogango com feijão catarino "arrasou, avassaladoramente este ano as restantes 22 sopas em prova. A executora desse caldo, aqui presente, recebeu ainda o 3.º prémio, em compotas, com uma mamelada feita a preceito que, pelo que foi dito no recinto, tinha macieza mais delicada que a do 2.º prémio, a qual, também sendo marmelada, seria feita mais apressada e atabalhoadamente, sem a ternura requerida. O creme, na categoria de Doces, ao qual já havia aludido em palestra de anterior Encontro e, com que habitualmente concorro, este ano foi ignorado pelo júri, facto que bastante me surpreendeu por ser feito de experiência acumulada de outros tantos com honras de classificação do 3.º. prémio, ao 2.º e, até mesmo do 1.º. Este, feito pelas mesmas mãos, no mesmo tacho, ingredientes na validade, igual número de rotações com a colher de pau e, com aquela espessura tão próxima do ponto de rebuçado, sabor e deleite tão característico da mexidela compassada e com a técnica de quem a sabe fazer, não mereceria, por isso, desprezo tal. Paciência: Esta Casa do Povo, não é hotel, nem hostel, nem pensão ou casa de pasto, de comes e bebes, taverna ou tasca, é, por decreto uma IPSS Instituição privada que sobrevive à custa de cotas de sócios, nos quais me incluo, maioritário e em dia, de subsídios pagos pela Segurança Social em função das crianças que frequentam o espaço do ATL e, principalmente, pelos vários eventos patrocinados ao longo do ano. O nosso Almoço é um exemplo, tais como outras refeições só confecionadas, a pedido e exclusivamente. Por causa disso, pedia autorização para em nome agradecer, pela prestação empenhada, zelosa e sempre atenta da presidente da Casa do Povo, Ana Maria Pedrosa, bem como a este punhado de gente, pela colaboração que prestou e que aqui veio, graciosamente, para ambientar e nos servir com a e cortesia de profissionais que o não são. A todos vós, muito obrigado. Depois e, ainda que pareça mal, deixai-me igualmente agradecer a ti, Isaura Maria que, ainda tendo a Casa do Povo no coração, aqui foste, a organizadora, mola e motor do nosso Encontro tanto aqui, como acolá, ali e além a que não se escapa a cerim6nia religiosa. Muito obrigado. Também o desejava fazer à Maria Emília -Milita Costa- pela disponibilidade e prontidão a executar pormenores, pela ideia oportuna sempre, sempre preocupada para que o Encontro seja o melhor de sempre. Muito obrigado. A ti, Vitória, pelo apetite às sopas do Alentejo, pelo prazer de nos encontrar, pela amizade inequívoca por todos sentida, pelo carisma entranhado que em ti reside e de só tu seres capaz de, pelo estímulo, reunir tão grande número de presentes. Muito obrigado.
Aos presentes... pela vossa presença, pela satisfação de todos nós podermos, assim, saudar, falar, confraternizar e recordar. Sem vós, claro, não haveria Encontro. Muito obrigado, Não escrevi mais, consequentemente, nada mais saberei dizer, a não ser... o que de bem a todos vos desejo.
Muito Obrigado
DISSE
Augusto Ribeiro Pinto
Ten Cor. (Ref)


 

Uma peculiar interioridade

Tenho reflectido por escrito sobre algumas questões de cariz universal, na medida em que trespassam tempos e espaços da existência independentemente do destinatário. Hoje proponho-me encarnar aquela face que para muitos mais caracteriza a natureza humana, ou pelo menos exige continuado esforço para lhe moderar os efeitos: o egoísmo. Ainda assim, faço-o na qualidade de dirigente associativo e em representação da comunidade em que o indivíduo que eu sou mergulha as suas raízes: o Meimão.

O Meimão (250 habitantes) é talvez um dos mais extremados exemplos da interioridade do País. Das freguesias do concelho, é a mais distante da sede, em Penamacor, já de si enfermo da mesma moléstia; orograficamente é um calvário, que restringe dramaticamente os movimentos e o convívio numa comunidade envelhecida; há um autocarro de ligação a Penamacor para transporte dos estudantes, que pode ser utilizado pela população, e um serviço de táxi, cujo condutor reside fora da freguesia; há uma secção de Bombeiros às ordens do Corpo de Bombeiros de Penamacor, e a presença de médico  uma vez por semana e de enfermeiro três vezes; não há espaços arquitectónicos que apelem ao convívio, ao entretenimento ou a outras actividades permanentes de animação comunitária;  a adesão às valências de apoio social (Centro de Dia e Apoio Domiciliário, geridas pelo Lar Dª Bárbara Tavares da Silva, em Penamacor) é mínima pelo facto de a qualidade dos serviços prestados  reflectir estas limitações, cujo maior exemplo é o de as refeições serem servidas depois de um longo transporte, a partir de Penamacor; não existem condições básicas de desenvolvimento económico, e à própria economia de subsistência vão faltando as forças destas gentes.

E, no entanto...este mesmo Meimão é, como poucos, uma fonte de riqueza para o País. Riqueza para os outros, pesadelo para nós. Nos seus limites, e à custa do abastardamento de uma paisagem paradisíaca que nos coube em sorte, foram implantadas essas fantasmagóricas torres eólicas ditas, que nos cercam, como num circo as grades cercam os animais. A nata dos seus terrenos foi ocupada pela albufeira, não da “Barragem do Meimão”, como seria de justiça, mas da “Barragem da Ribeira da Meimoa”, designação reveladora da insensibilidade e ingratidão que tantas vezes caracteriza os nossos decisores políticos. Ao lado, foi construída a Barragem do Sabugal. Tanta barragem, tanta água, fizeram de nós os Tântalos da actualidade: no verão, secam-se-nos os terrenos remanescentes, porque não nos chega uma gota da tanta água que nos cerca. Uma mini-hídrica, instalada em pleno Aliso, referência mítica entre os sítios do Meimão, injecta a energia produzida na rede pública de electricidade... e nós a vê-la passar.  A RNSM (Reserva Natural da Serra da Malcata) ocupa parte dos nossos terrenos, condicionando aos proprietários a sua utilização.

Com o propósito de reverter tantas desvantagens, tantos desequilíbrios, tantas assimetrias, enfim, com a vontade de fazer das fraquezas forças, constituiu-se a Xara-Associação de Solidariedade Social e Desenvolvimento Local de Meimão, com tríplice objectivo: social, económico e cultural. Os estatutos elegeram como principal o objectivo social, assim literalmente expresso: “criar e manter em funcionamento um lar para a terceira idade na freguesia de Meimão”, tendo sido nessa base que a associação foi reconhecida como IPSS.
Mãos à obra, e aí temos o nosso lar, neste momento limitado à estrutura de betão e...parado! É que tudo o que está feito se deve aos contributos de particulares, sobretudo das gentes do Meimão.

 Arrancámos, há cinco anos, para esta aventura de contribuirmos para um interior mais feliz no pressuposto de que, à semelhança de tantos outros projectos similares, pudesse o nosso contar com os apoios dos programas sociais da Comunidade Europeia e o empenhamento institucional do poder político. Não! Nem de uns, por se revelarem suspensos, nem de outro, por  insondáveis razões de incoerência, lográmos, até ao momento, qualquer atenção.



Nos nossos desígnios consideramos a comunidade como um todo, que pode beneficiar e enriquecer-se com as interdependências e interacções dos seus membros. Um lar no Meimão, com todas as valências sociais que podem orbitar na sua proximidade, não vale só por si, mas pelo entusiasmo e dinâmicas que irrompem da realização de objectivos tão bem definidos quanto o nosso. Significa movimento, fixação de pessoas, promoção de actividades. E nisto se constitui também como desígnio nacional: luta contra a desertificação do interior , propondo-se como acção de efeitos  a todos os prazos e em todos os domínios, com equilíbrios urbano-rural e litoral-interior como garantia de saúde social e económica em ambos os po
los e instalação de agentes interactivos com a consequente criação de condições de qualidade de vida e fixação de habitantes.

Parece isto um lamento, mas não é, é um grito.
Este nosso grito há-de chegar aos


confins do Universo. Havemos de com ele saturar as redes sociais, fazê-lo chegar a cada um dos Portugueses espalhados pelos quatro cantos do mundo e a todas as pessoas de boa vontade, até ao dia em que um dos nossos responsáveis políticos tropece nas nossas angústias e, num assomo de coerência, nos diga, em representação de quantos só em tempos de calamidade têm reconhecido a gravidade da situação nas populações do interior e o abandono a que têm sido votadas: “Sim, basta de palavras de ocasião. Os efeitos adversos da interioridade combatem-se com factos e obra. Vamos a isso, Meimão!”
A Xara-ASSDLM tem a sua sede na Rua da Escola, nº6, 6320-192 Meimão, e o endereço electrónico correio.xara@gmail.com


Meimão, 15 de Março de 2018
Manuel Neto

terça-feira, 17 de outubro de 2017


Lei da necessidade e

livre arbítrio



Os extemporâneos calores que nos abrasam, para alguns até à morte, outubro dentro, trazem-me de volta o meu Espinosa, refrigério certo nos meus desânimos.

Espinosa concebe Deus e Natureza como única realidade – uma única substância, infinita, indivisível, perfeita, causa sui, isto é, eterna, na medida em que da essência desta substância faz parte o existir. Este conceito de substância exclui a existência de qualquer outra, por isso que se limitariam mutuamente, sendo inconcebível um Deus limitado. Além disso, uma substância limitada colocar-nos-ia perante o problema do Nada, que necessariamente teríamos de conceber tanto no antes como no depois do existir. E um Nada gerador, ou como resultado de algo que deixou de existir, tanto repugna à nossa razão, como à ideia de um Deus Criador que, embora, por hipótese absurda, pudesse criar do nada, ficaria limitado pela sua Criação.

Entre os muitos corolários que se podem extrair desta concepção de Deus-Natureza há o da lei da necessidade, a ela se associando a velha questão do livre arbítrio. Esta lei da necessidade, no ser e no existir e devir das coisas, condiciona todos os acontecimentos do Universo, mesmo os do foro comportamental dos seres vivos, incluindo os humanos. Deus não é um titireiro a manipular, a seu belprazer, os bonecos que fez do barro que fez do nada, mas imanência pura numa realidade eterna em que tudo acontece por necessidade.

A cultura judaico-cristã, em todas as suas fórmulas impostas ao longo de séculos, formatou de tal modo as nossas mentes, que não nos apercebemos como manifestações desta lei se nos impõem com ensurdecedora evidência no nosso quotidiano. O produto de 2x2 será sempre 4, queiram ou não queiram os próprios deuses, e assim com todas as leis da matemática; quer queiramos quer não, nascemos porque alguém , não nós, o decidiu; morremos, esgotada a energia ou saturadas as sinapses; inelutavelmente, respiramos, comemos, dormimos, defecamos, copulamos...; nós, homens, cobiçamos com ardor inextinguível a mulher do próximo, para escândalo do próprio Deus (bíblico), que não quis, ou esqueceu, reprovar igual comportamento da mulher relativamente ao homem da sua próxima; assistimos, impotentes, à sucessão dos dias e das noites, dos equinócios e dos solstícios, a procelas e terramotos, a incêndios apocalípticos, à errância dos astros, ao nascimento e colapso das estrelas e, agora, depois de inventada a bolsa, às suas oscilações...

Que nos resta para o exercício do livre arbítrio? Um espaçozito marginal como cenário de decisões a que pomposamente chamamos livres. Pura ilusão: mesmo essas, são condicionadas por esse senhor absoluto das nossas vidas chamado DESEJO, quase sempre camuflado.

Atentemos, porém, a algumas das vantagens desta mundivisão: a ética é um estado natural liberto de conceitos como “culpa”, “bem e mal”..., produtos da relativização com que nós, limitados sapiens, analisamos a realidade, decompondo-a, ou da ignorância da ordem e da coerência da Natureza como um todo; a liberdade é a conformação com as leis, necessárias, da Natureza; a paz social deixa de ser uma miragem, pois a condenação cede lugar à compreensão dos outros; não precisamos de acreditar em Deus, e muito menos de o temer: nós somos Deus...

Ao argumento de que esta é uma atitude amorfa, derrotista, paralisante, eu respondo que me extasio com a contemplação da Natureza, que me realizo colaborando com ela nas suas múltiplas manifestações, que me serena aperceber-me da importância absoluta de cada parcela do Universo e o respeito que isso suscita em mim por tudo quanto me rodeia, que me comprazo, em arrebatamentos orgásticos, com a harmonia das esferas celestes, com uma boa reflexão sobre a unicidade do Ser, com a Pastoral de Beethoven, com a Clepsidra de Camilo Pessanha, com um quadro da Paula Rego...



O nosso querido seleccionador, Fernando Santos, disse-nos que foi Deus quem lhe concedeu, a seu pedido, envolvido em intensa fé, a vitória no Europeu de Futebol. Não malevolamente, por certo, o seu anúncio perante as câmaras de televisão, nesse glorioso 10 de Julho de 2016, terá sido no mínimo deselegante para com aqueles seus colegas que, com igual fervor, requisitaram a Deus semelhante graça. Por que não a tiveram do seu lado é questão que os crentes remetem para os insondáveis desígnios de Deus, que terá tido as suas razões, por exemplo, um passado de malandragem ou um simples grau de menor intensidade na manifestação da fé dos outros seleccionadores...Mas como compreender o adulto incólume que reza, ao lado da criança esmagada num terramoto? Foi a fé que o salvou, diz o próprio e, com ele, muitos crentes, fazendo de Deus um mesquinho simulacro da ganância, da vaidade e do egoísmo humanos... E já nem refiro as crianças vítimas fatais de catástrofes ao lado de adultos ateus saudavelmente vivos...



A minha estrada



É uma estrada concreta

de compacto alcatrão

vira à esquerda e à direita

como em qualquer receita

de uma estrada concreta

ou de imagiação



Por ela sigo na vida

às vezes em contra-mão



Não há verso sem reverso

nem partida sem regresso

por uma estrada concreta

ao sabor da inspiração











Parede, Outubro de 2017

Manuel Neto