sábado, 22 de outubro de 2016

Infância

 Em enxerga velha e rota nascido,
Onde também nasceram meus irmãos,
Sobre a cama de lenho carcomido,
Construída com as próprias mãos
De meu pai que desta poda sabia, 

Entre quatro paredes toscas,
Telha-vã, soalho de afiadas lascas,
Às vezes com fome e frio adormecia.


No regaço de minha mãe, sentada
No escano, à lareira, aos serões,
À luz baça da candeia pendurada
 Na parede e da labareda dos tições,
Ouvia entusiasmado, sedento,
Estórias fantásticas de encantar
Da boca de quem as sabia narrar:
Meu pai, meu herói, meu alento.

Descalço, calças rotas nos joelhos
E no rabo, mais uns amiguinhos,
Aos pinchos pelas sebes e quelhos
Da povoação à procura de ninhos,
Fazendo uma razia a fruta alheia,
Qual bando de pardais famintos
Revoando à volta dos recintos,
Conscientes da próspera tareia.

Outras vezes jogávamos ao pião,
À cabra-cega, ao arco e gancheta,
À bola, com tudo que havia à mão,
Até andar atrás duma borboleta.
Alguns, além da escola não faziam
Mais nadinha a não ser brincar,
Outros tinham tarefas a executar
Outros ainda pela rua iam e vinham.

Toca a levantar seu mandrião,
São horas de ir para a escola,
Toma lá este bocado de pão,
Olha os livros, mete-os na sacola,
Logo que saias da escola vens
Direitinho para casa, ouviste?
Dizia minha mãe com o dedo em riste
Reforçando assim as suas ordens.

Depois da escola não havia diversão,
O colegial dava lugar ao vaqueiro
Que cedo se iniciou na servidão.
Comia à pressa e ia ter ao lameiro
Onde o gado pascia distraidamente,
E por lá ficava até ser noitinha cuidando
Dele, cantarolando e assobiando
E tocando flauta destramente.

Comigo na escola andava uma miúda
Por quem me apaixonei seriamente.
De adolescência precoce era graúda.
Ela sabia e não tinha nada de inocente.
Os seus cabelos são da cor do carvão,
Compridos, sobre as costas ondeantes,
Os olhos como sóis, de marfim os dentes,
Os lábios róseos, os peitos enchiam a mão.

Quase a entrar na puberdade,
A quarta classe feita de fresquinho,
Continuava como até ali sem liberdade
Para vadiar na rua um pouquinho.
Que raiva ver os amigos a brincar
E não poder acompanhá-los!
Sem querer passei a invejá-los,
Inveja que acabou por passar.

Tinha um amigo que me seguia
Para onde quer que fosse, o Dogue,
Que não dormia durante o dia,
Sempre atento este buldogue
Anão às lindas e fofas ovelhinhas,
Farejando em todas as direções,
Acatando as ordens sem objeções,
Indo à procura das reses perdidas.

Leonel Anjos Neves

quarta-feira, 21 de setembro de 2016


Translúcidos os dias

             “avant tout, la musique”

                                      Verlaine

 
translúcidos os dias
em que suspensos
lúcidos
a espaços prússicos
às margens apensos

e em rituais intensos
acrisolados crepúsculos
nos consomem
insepultos
em sepulcrais conventos

a trote a galope
na planície os ventos
sarabandam tensos
sem rei nem roque

e no final propensos
à sorte humanos
soturados vamos
reparados os danos de hipertensos

a rodavida
por quem movida
demais sorvida dolentemente
e no plaino fremem
os deuses tremem
de raiva ferem
perdida a vida inconsequente

ó potestades
a que vindes
e que idade vos esconde
com que brocados teceis
a teia que nos envolve

amen

                                outubro de 2013

                                  manuel porém

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Mote 2


Mote


Tema: O contrabando 

Tudo contrabandeei
No vigor da minha vida;
Hoje que me reformei
Só já recordo essa lida

À chuva, vento e ao frio,
Noites e noites andando,
As gentes do contrabando
Passavam a custo o rio;
Aprendi com um meu tio
Aquilo que ainda sei
E que depois ensinei:
Café, tabaco e tecidos,
Gados, loiças e vestidos
Tudo contrabandeei!

Era nos canaviais
Que a gente se escondia
Dormindo durante o dia
Para a noite render mais;
Entre gemidos e ais
Íamos nós de saída
Nessa autêntica corrida
Jogando ao gato e o rato
Feita pelo meio do mato
No vigor da minha vida

Atravessando a campina
Lá no Posto dos Mociços,
Safei-me aos Pica-Chouriços
Numa noite de neblina;
Fugi por uma ravina:
Por todo o lado saltei
Nem sei como me safei
Mas arranjei um enredo:
Lembro-me e tenho medo
Hoje que me reformei

Relembro que o “Pata Larga”
Uma vez, em Juromenha,
Escondeu-se numa brenha
Ele mais a sua carga;
Com os guardas à ilharga
E as balas de zunida
P’ra Cheles foi de fugida
Safou-se p’ró outro lado…
…E eu hoje, velho e cansado
Só já recordo essa lida

Autor: Fernando Máximo/Avis

IV Concurso de Poesia Popular
Camara Municipal de Alandroal

Tema: O contrabando (2016)
1º CLASSIFICADO

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Guardas e contrabandistas

Ouvira dizer muitas vezes que para a Guarda-fiscal só iam os contrabandistas. Isso era dito com más intenções. Obviamente que só podia ser com más intenções. Ele, enquanto contrabandista, dissera-o também muitas vezes, pois que até conhecia alguns nessa condição. Mas o destino às vezes é surpreendente: acabado o serviço militar obrigatório o Tonho da Mochila, por influência de um amigo do pai, mete os papéis para a Guarda e então não é que é chamado? Ora se ele estava para se casar e se lhe aparecia aquela hipótese de uma vida melhor porque não aproveitar? E foi incorporado no ano de 1947 tendo sido colocado no posto de S. Brás dos Matos, na Mina do Bugalho, no concelho do Alandroal, ali bem junto ao rio Guadiana que, por mor da subida das águas do Alqueva neste momento já está submerso. Foi ali que “desemburrou”, como se costuma dizer. Mas as suas origens não eram aquelas e então nada melhor do que tentar aproximar-se de casa pois que ninguém vive melhor do que quem vive junto dos seus. E ao fim de ano e meio de S. Brás dos Matos, o nosso guarda António Santos, ex-contrabandista Tonho da Mochila, é colocado no posto de Galegos, já muito perto da sua santa terrinha que era S. Julião, concelho de Portalegre. Hoje, reformado, mais não faz do que desfazer o novelo das suas recordações, trazendo ao de cima situações bastante caricatas e há uma que sempre, mas sempre, se sobrepõe às outras.
Talvez vos deva explicar porque é que o guarda António Santos era o Tonho da Mochila antes de ser incorporado naquela força militarizada. É que ele conseguia sempre trazer uma “mochilada” de contrabando maior que o dos seus colegas, quando ia a La Codosera nas imediações da sua terra. Mas este esclarecimento até é irrelevante para a nossa história, pelo que vamo-nos centrar no tal episódio mais marcante de quantos passaram pela vida deste guarda e que o marcou definitivamente.
Chegado ao posto de Galegos, depressa se entrosa com a sociedade civil, não deixando de ser curioso que havia um certo limite, por vezes bem definido, que impunha até onde se poderiam estender as amizades e as companhias. Ao fim de três meses de se ter apresentado ao cabo Marques, comandante do posto, este chamou o guarda António Santos ao seu gabinete: é que durante este tempo todo o jovem ainda não apresentara qualquer serviço, não fizera qualquer apreensão. Era assim: ele sabia que havia que se mostrar serviço, mas caramba, as pessoas, entenda-se os contrabandistas, também tinham família para sustentar, também tinham encargos. Ele, melhor que ninguém, sabia como era. Mas o raspanete do Cabo Marques foi demasiado severo e o nosso guarda ficou bastante apreensivo. Tinha que fazer qualquer coisa. À tarde foi até à venda onde se juntavam os usuais sobreviventes do contrabando, para tentar sacar algo. Para disfarçar, bebeu um pirolito que lhe subiu ao nariz, tossiu engasgado e ouviu alguém dizer entre dentes: Estás aqui a mais! Antes bebesses um copo de veneno...
Depois de beber o pirolito, o nosso guarda saiu. Era já quase lusco-fusco quando a meio do caminho entre a venda e a sua casa ouviu alguém chamá-lo baixinho. Sempre houve bufos, gente infiel, denunciantes. Quem o chamava era o Manel Zarolho, assim apelidado por causa de um tiro de raspão que levara num olho, disparado por um guarda a quem tentara fugir certa vez, com uma taleigada de café.
- Senhor guarda, se me ajudar eu dou-lhe umas pistas.
- Umas pistas? O que queres dizer, ó Zarolho?
- Então é assim: logo, eu e mais três companheiros vamos à Fontanheira levar umas cargas de café. Eu tenho andado com azar pois este mês já fui apanhado duas vezes pelos carabineiros e não tenho ganho nem para a onça de tabaco. O que eu tenho a propor ao senhor guarda é o seguinte: nós entre as duas e as três vamos regressar carregados, pela vereda que conduz à parede do Porto da Azinheira. Eu sou o da frente e você só tem que apanhar o de trás que assim já o senhor apresenta serviço e eu safo-me desta vez. Está a compreender? Eu não sou nenhum filho da mãe, nenhum denunciante, mas com o azar com que ando ultimamente, já tenho medo de tudo! Se eu fosse mau dizia para me deixar safar só a mim e que apanhasse os outros três. Mas não, e assim você fica bem visto e nós safamos alguma coisa. Mas não pode dizer nada, senão eles matam-me. Combinado?
- Está bem, e como sei que não me estás a enganar?
- O senhor conhece-me e se não for assim como eu lhe digo, depois dá-me uma sova das valentes na primeira vez que me encontrar.
- Fica combinado. Vou repetir para não falhar nada: entre as duas e as três da madrugada, no Porto da Azinheira, na vereda que conduz à parede. Tu és o primeiro, eu apanho o último...
Cada um seguiu o seu caminho. António Santos foi jantar calmamente uma sopinha da panela, sonhando com o seu primeiro serviço naquele posto, enquanto o Zarolho foi ter com os companheiros, certo de que se iria safar. Mal se fez de noite carregaram umas mochilas de cerca de quarenta quilos de café cada um e foram a caminho da Fontanheira. Uma vez lá chegados, descarregaram as cargas, e dormiram um bocado para descansar e recobrar forças para no regresso a casa poderem trazer mais uns trinta quilos de toucinho e algum azeite ou mel, já que agora não havia fardos de cortiça para contrabandear. Descansaram, dizia eu, mas não todos. O Zarolho andava lá enrabichado com uma espanhola, foi namorar e quando deu pelas horas já os companheiros tinham saído. Não havia muito tempo é certo, mas já não os vislumbrava apesar de saber que eles iriam por perto e espaçados de cerca de dez minutos cada um. Por sua vez o guarda António Santos, à civil mas de pistola e bem agachado junto ao local onde os contrabandistas tinham que saltar a parede do Porto da Azinheira, esperava pacientemente no seu aguardo. O tempo custava-lhe a passar. A noite estava de luar mas o céu encoberto por nuvens altas, não lhe dava lá grande visibilidade. Começava a desesperar quando ouviu “rasmalhar” ao fundo da vereda, e mais longe ainda ouviu o ladrar de um cão. Apurou a vista mais o ouvido e viu aproximar-se, vagarosamente, um vulto que a custo se movia vereda acima com uma enorme carga às costas. Pensou: é o primeiro a passar, logo é o Zarolho. Mas que até não lhe pareceu o andar dele...passados dez minutos, outro; mais dez minutos, outro. Houve um espaço maior. O guarda olhou o relógio: já havia quinze minutos que passara o último contrabandista. Julgou-se enganado. Espumou de raiva e praguejou contra o Zarolho. Deixara-os passar a todos. E o cabo Marques? De repente vê aproximar-se o último, já com vinte minutos de espaçamento:
- Alto em nome da lei! Larga a carga ou mato-te! disse o guarda Santos já bem agarrado aos tirantes da grande carga de cerca de quarenta quilos de toucinho que já cheirava um pouco a bafio.
- Senhor guarda, eu sou o Zarolho... Sabe... a minha Lolita não me largava e eu quando me despachei já eles tinham abalado...já não fui o primeiro...sabe esta coisa das mulheres serem teimosas...eu não queria, mas...e agora senhor guarda?
- E agora, Zarolho? Que queres que eu te faça? Bolas p’ra isto!
- Tenha pena de mim que sou um desgraçado. Nem para denunciante sirvo! Se o senhor guardinha quiser, leve-me o toucinho mas deixe-me ao menos o mel que é para os meus gaiatos que andam com tosse, tadinhos...
...No dia seguinte, o cabo Marques deu os parabéns ao guarda Santos, pela apreensão de toucinho que fizera. Era pouco, mas já era alguma coisita. De mais a mais tendo em conta de que actuara sozinho... Por sua vez o guarda António Santos, desconfiava, à altura deste relato, que não tinha lá grande “queda” para ser guarda...era um coração mole! Hoje tem a certeza: foi transferido como impedido para a Secção de Portalegre, onde se reformou por limite de idade.

Avis, 16 de Julho de 2006
(Fernando Máximo)
Sou filho de um ex-guarda-Fiscal, de nome JOSÉ DA SILVA MÁXIMO. Esteve em tantos postos da fronteira alentejana e algarvia que nem sei...Rabaça, S. Brás dos Matos, Pomarão, Mocissos, Tomina...
As vezes gosto de escrever uns bocados de verdades misturadas com imaginação. Quero partilhar convosco um conto que, por acaso, até foi premiado com uma menção honrosa num concurso literário que houve no Redondo....para todos vós que gostais de "A grande família da Guarda-Fiscal":


sábado, 26 de dezembro de 2015

Recolectar
A rotina. Essa cavernosa mãe de todos os vazios, de todas as depressões. Tinha, pois, decidido suspender os meus Votos de Natal, de tal modo me soavam já a rabanadas. Eis que, no entretanto, decide o governo apresentar o seu programa, centrados os objectivos em torno do consumo, ao mesmo tempo que a Paris afluíam quase todos os governantes da Terra em demanda de antídoto para o aquecimento global. Pareceram-me muitas as contradições, e por momentos me soltei do sonambulismo em que esta sociedade da abundância me retém narcotizadamente prostrado.
Os humanos, sabendo que o Planeta está, como qualquer organismo, endemicamente marcado pela morte, tentam desesperadamente retardá-la, depois de, desde os alvores do sedentarismo, a terem loucamente apressado no festim de todas as ganâncias. Assim é a inteligência humana: a cereja envenenada no topo do bolo. De conquista em conquista dos segredos da Natureza, eis-nos chegados, como Pirro, à iminência do Armagedão final, em que, no dizer de Shopenhauer, é a Vontade que supera a Inteligência na tomada de decisão sobre a natureza e o sentido das coisas. Pois diz-me, irmão, se, aqui chegados, depois de tanta descoberta feita por esse expoente evolutivo que é a Inteligência humana, a tua Vontade prescinde do calor e do frio manipulados, das locomoções propulsionadas, das provisões alimentares, das próteses robóticas, do automatismo das armas, da informação a distância, da saúde em provetas e comprimidos, da vida em quantidade... Não, não prescindes, tal como os 190 e tantos governantes da Terra, que, em Paris, ansiavam por regressar a Penates e às boas graças dos seus súbditos, proporcionando-lhes as cada vez mais completas e sofisticadas condições de consumo...até que a nós próprios nos consuma a geena.
Vislumbro, ao fundo do túnel, a possibilidade de superarmos este quadro apocalíptico: que a esta Vontade instintiva, que subrepticiamente nos determina e condiciona os comportamentos, saibamos opor a Vontade caldeada pela Razão de simplesmente vivermos ao ritmo da Natureza, no respeito pelos seus mistérios. É frase feita, até à náusea repetida. O que talvez não tenha sido ainda enunciado, por ignorância ou mero pudor, é a sua fórmula prática: voltar à recolecção e à predação natural como forma de subsistência. Por mim, introduzi já na minha dieta bolotas, saramagos e medronhos com fartura, e tenho montado umas emboscadas, embora sem êxito, por enquanto, a uma lebre que resiste ali para os lados da minha Barroca Funda. Se todos me seguirem o exemplo, é quase garantido que o planeta retome a sua inexorável, mas muito mais lenta, progressão para a morte. Restar-nos-ão, assim, uns bons séculos em que será ainda possível recriar bucólicos ambientes virgilianos com melodiosos zumbidos de atarefadas abelhas e cabritinhos saltando em verdejantes e floridos prados ao som de amenas flautas. 
Sem esta conversão, irmão, é o fim que nos espreita ao virar do século, ou já da próxima esquina, se não tivermos a coragem e o engenho de evitar os esquinosos programas de consumo dos nossos governantes.
Meimão, 13 de dezembro de 2015
Manuel Neto